A resposta curta

A maioria. A CUF lembra que o jejum só é necessário para um pequeno número de testes, e que na maior parte dos casos pode comer normalmente antes das análises ao sangue. Hemograma, HbA1c, tiroide, coagulação, grupo sanguíneo e, em regra, função hepática podem ser colhidos sem jejum. A lista curta das que ainda o pedem é encabeçada pela glicemia em jejum, e encolheu desde 2016, quando as recomendações europeias deixaram de exigir jejum para o colesterol.

O problema é que muitas requisições misturam os dois tipos. Eis as análises que não precisam de jejum, as poucas que ainda precisam e como saber que regra se aplica à sua colheita.

Análises que não precisam de jejum

O hemograma dispensa jejum, e os laboratórios portugueses dizem-no sem hesitar: a Associação Portuguesa de Analistas Clínicos dá-o como exemplo, ao lado do INR e da vitamina D. A HbA1c também não exige jejum, porque reflete a média do açúcar no sangue dos últimos três meses e não o pequeno-almoço dessa manhã.

As análises da tiroide dispensam jejum, mas a hora do dia pesa mais do que a comida. Num estudo com mais de 20 000 resultados de TSH, a hora da colheita deslocou a TSH o suficiente para ter importância clínica. Uma colheita de manhã, mais ou menos à mesma hora de cada vez, torna os resultados mais fáceis de comparar.

A SYNLAB junta à lista a função hepática, os marcadores tumorais, os marcadores de inflamação, o grupo sanguíneo e a coagulação. Para a função renal, as indicações variam: a CUF pede normalmente 8 a 12 horas de jejum. Na dúvida, é a sua requisição que decide.

  1. HemogramaSem jejum. Qualquer hora do dia serve.
  2. HbA1cSem jejum. Coma e beba como de costume.
  3. TiroideSem jejum. Prefira a manhã, mais ou menos à mesma hora de cada vez.
  4. Coagulação, INR, vitamina DSem jejum, segundo os laboratórios portugueses; evite só uma refeição muito gorda antes.

A lista curta das que ainda pedem jejum

A glicemia em jejum é o caso claro. Os laboratórios portugueses pedem 8 a 10 horas sem comer, normalmente de manhã, porque uma refeição altera o açúcar no sangue durante horas. É também nesse valor em jejum que assenta um dos critérios de diabetes da norma da Direção-Geral da Saúde, e por isso a amostra deve ser colhida depois de 8 horas sem comer, no mínimo.

O perfil metabólico básico, um conjunto de medições que inclui a glicose, pode exigir também 8 horas de jejum. O ferro pede 12 horas e uma colheita de manhã, e a vitamina B12, 6 a 8 horas. O laboratório Germano de Sousa lembra ainda que o cortisol, o ferro e a ACTH devem ser colhidos de manhã, por causa do seu ritmo ao longo do dia.

Nos homens em estudo de testosterona baixa, a Endocrine Society recomenda medir a testosterona total numa amostra de manhã e em jejum, e confirmar um valor baixo com uma segunda amostra nas mesmas condições.

Para além destas, uma requisição específica pode trazer a sua própria indicação, que é sempre a que deve seguir.

O colesterol mudou de lado

Durante décadas, uma análise ao colesterol significava jejum de uma noite. Desde 2016, a Sociedade Europeia de Aterosclerose e a Federação Europeia de Química Clínica e Medicina Laboratorial recomendam o contrário: medir os lípidos sem jejum, por defeito.

As diferenças são pequenas. Depois de uma refeição normal, as maiores variações médias são de cerca de +26 mg/dL nos triglicéridos e −8 mg/dL no colesterol LDL, enquanto o colesterol HDL, a apolipoproteína B e a lipoproteína(a) praticamente não mudam, e os valores sem jejum preveem a doença cardiovascular tão bem como os outros.

O jejum só volta numa situação: quando os triglicéridos sem jejum passam os 440 mg/dL (5 mmol/L). Em Portugal, contudo, as indicações dos laboratórios continuam muitas vezes a ser de 10 a 12 horas antes do colesterol e dos triglicéridos. Se o seu médico pedir um perfil lipídico sem jejum, não é um atalho; é uma simplificação que não tira valor ao resultado para a prevenção.

Pode comer antes das análises?

Sim, se nada na requisição exigir jejum. Coma como de costume; um pequeno-almoço normal antes de um hemograma, de uma HbA1c ou de umas análises à tiroide não atrapalha. A Associação Portuguesa de Analistas Clínicos só faz uma ressalva: uma refeição muito rica em gordura mesmo antes pode interferir em algumas determinações.

Há uma vantagem prática que a CUF sublinha: quando as análises não exigem jejum, pode fazer a colheita logo a seguir à consulta, sem ter de voltar outro dia. Se a requisição misturar análises com e sem jejum, são as que pedem jejum que ditam a regra para toda a colheita.

Porque lhe pediram jejum na mesma

Porque a indicação é dada, geralmente, para a requisição inteira e não linha a linha. Uma glicemia em jejum numa folha de quinze análises torna toda a colheita numa colheita em jejum, o que dá a impressão de que as quinze o exigiam.

Os hábitos também variam. Os especialistas de laboratório reconhecem que a definição de jejum varia entre instituições, e a recomendação europeia de 2014, que um laboratório português resume, previa colher todas as análises de manhã, 12 horas após a última refeição, antes de admitir as exceções. Siga a indicação da sua requisição em vez de uma tabela na internet, esta incluída.

E se fizer jejum sem precisar?

Para a maior parte das análises que não exigem jejum, um jejum desnecessário custa-lhe apenas o pequeno-almoço. O resultado não fica estragado por isso. A Associação Portuguesa de Analistas Clínicos lembra, no entanto, que o jejum não deve passar das 12 horas: um jejum muito prolongado também mexe nos valores.

A exceção é a segurança. Se toma insulina ou um comprimido para a diabetes que baixa o açúcar no sangue, fazer jejum mantendo a dose habitual aumenta o risco de hipoglicemia. Não faça jejum se não lho pediram e, se pediram, pergunte ao médico o que fazer nessa manhã.