A resposta curta

Sim, na maioria dos casos: tome a medicação habitual com água, salvo indicação contrária de quem a receitou. A Associação Portuguesa de Analistas Clínicos pede apenas que informe sempre a técnica de colheita dos medicamentos que toma e, se possível, avise o médico com antecedência; o laboratório Germano de Sousa acrescenta que, se um deles interferir, é com o médico que se decide se pode ser suspenso. Tomar comprimidos não impede uma análise em jejum.

As exceções são poucas e concretas: os medicamentos que baixam o açúcar no sangue, algumas tomas que é melhor fazer depois da colheita e os suplementos que podem falsear a própria medição. Então, pode tomar comprimidos antes de fazer análises? Em regra, sim, e as secções abaixo mostram como reconhecer os casos em que a resposta muda.

Nunca suspenda um tratamento por conta própria

Não pare um tratamento para melhorar um número. Interromper um anticoagulante, um medicamento para a tensão arterial, um antiepilético ou a hormona da tiroide pode trazer um risco real, quando o número em si só trazia um incómodo. Se um tratamento tiver de ser suspenso, quem o receitou di-lo, por escrito, e diz durante quanto tempo.

Tomar os comprimidos com um copo de água também não quebra o jejum: a água simples é permitida até à colheita.

Medicamentos da diabetes e análises em jejum

É a exceção que mais pesa na sua segurança. A insulina e alguns comprimidos para a diabetes, incluindo as sulfonilureias e as meglitinidas, baixam o açúcar no sangue ao aumentar a insulina, e mantê-los durante um jejum para um exame aumenta o risco de hipoglicemia. A insulina, aliás, está entre os medicamentos que a Associação Portuguesa de Analistas Clínicos cita como capazes de interferir nas análises.

Se toma algum destes medicamentos, pergunte a quem os receitou, antes do dia da colheita, o que fazer nessa manhã: tomar, reduzir ou adiar a dose. Marque o horário mais cedo possível, leve algo para comer logo depois da colheita e avise de imediato o pessoal se se sentir mal durante a espera.

Levotiroxina e outras tomas com hora marcada

Alguns tratamentos não se suspendem, mas acertam-se no horário, para que a amostra mostre o seu nível habitual e não um pico. A levotiroxina é o exemplo mais comum: depois de uma toma, os níveis de tiroxina (T4) e de T4 livre no sangue sobem cerca de 15%, com um pico por volta das quatro horas. Uma T4 livre colhida nesse intervalo pode sair mais alta do que o seu nível habitual.

É por isso que lhe podem pedir para tomar o comprimido depois da colheita, nas manhãs de análises. Siga a indicação que recebeu e, se não houver nenhuma, pergunte. Em qualquer caso, a toma faz-se, só um pouco mais tarde nessa manhã.

A mesma lógica aplica-se sempre que a análise mede o nível do próprio medicamento, e não o seu efeito. A requisição deve dizer quando tomar a dose em relação à colheita; se a sua não diz, pergunte antes de engolir o comprimido.

Biotina, ferro, vitaminas e outros suplementos

Os suplementos não são neutros só por se venderem sem receita. A biotina é o caso mais claro: muitas análises de laboratório usam uma química baseada na biotina, e o excesso de biotina no sangue pode interferir no método de medição, não no seu corpo.

Num estudo norte-americano, seis adultos saudáveis tomaram 10 mg de biotina por dia, uma dose comum em suplementos vendidos sem receita, durante uma semana. Nove das 23 análises baseadas em biotina deram então resultados potencialmente enganadores, uns falsamente altos e outros falsamente baixos. Entre as análises estudadas estavam as hormonas da tiroide, a paratormona e a vitamina D.

As vitaminas comuns também contam. O laboratório Germano de Sousa lembra que a vitamina C altera a determinação da creatinina e que a vitamina E interfere nos testes de agregação das plaquetas. E, se a requisição incluir o estudo do ferro, o laboratório pode pedir 12 horas de jejum e uma colheita de manhã; pergunte se deve interromper um suplemento de ferro, e durante quanto tempo.

Que medicamentos podem alterar as análises?

Muitos, de formas diferentes, e é por isso que a lista que leva conta mais do que qualquer tabela. Alguns exemplos portugueses e desta página: os antibióticos e os anti-inflamatórios podem interferir nos testes de coagulação pedidos antes de uma cirurgia; o ácido acetilsalicílico mexe na coagulação e, em doses altas, pode baixar a T4 total; os medicamentos para a diabetes mudam o próprio açúcar no sangue; a levotiroxina faz subir por pouco tempo a T4 livre depois da toma; e a biotina pode perturbar o método de medição.

Nenhum destes casos torna a análise inútil; tornam o contexto indispensável. Os resultados laboratoriais pesam em cerca de 70% das decisões clínicas, por isso um resultado lido sem saber o que toma pode levar uma decisão para o lado errado. Quando um medicamento não pode ser interrompido, o laboratório Germano de Sousa lembra que essa informação é tida em conta na avaliação do resultado.

O que dizer no laboratório

Leve uma lista, ou uma fotografia das caixas. As recomendações europeias sobre a colheita de sangue tratam a preparação do doente como parte da qualidade da amostra, e o que toma faz parte dessa preparação.

Se parou alguma coisa por sua conta antes de saber isto, diga-o em vez de o esconder. Um resultado lido como se tivesse tomado o tratamento, sem o ter tomado, é pior do que um resultado com uma nota.

E se ninguém lhe deu qualquer indicação, não está sozinho: num inquérito a doentes que chegavam para análises, mais de metade não tinha recebido nenhuma. Perguntar é normal.

  1. Nome e doseCada medicamento, tal como aparece na caixa ou na receita.
  2. Hora da última tomaSobretudo tudo o que tomou na manhã da colheita.
  3. Os suplementos contamVitaminas, biotina, ferro e produtos à base de plantas fazem parte da lista.
  4. O que foi interrompidoDiga se parou ou adiou alguma coisa, e por conselho de quem.