A resposta curta
Durante o jejum para análises, não: a CUF pede que não fume se tiver indicação para fazer jejum antes da colheita, tal como não come nem masca pastilha. Para qualquer análise, deixar o cigarro para depois da colheita é a escolha simples. A Associação Portuguesa de Analistas Clínicos e o laboratório Germano de Sousa recomendam não fumar no dia da análise, porque a nicotina interfere na curva de glicemia e nos testes de agregação das plaquetas.
O ponto mais importante é aquele que ninguém refere. Se fuma com regularidade, várias linhas das suas análises já estão acima das de um não fumador, e isso não é um erro. Fumar antes das análises pesa menos do que aquilo que anos de tabaco já fizeram ao seu ponto de partida. E a questão diz respeito a muita gente: em 2019, 14,2% da população portuguesa com 15 ou mais anos fumava todos os dias.
- 14,2%
- dos portugueses com 15 ou mais anos fumavam diariamente em 2019.[1]
Posso fumar duas horas antes das análises?
Depende de a análise exigir jejum. Não há um prazo oficial único para as análises feitas sem jejum, e as indicações dos laboratórios portugueses variam: a Joaquim Chaves Saúde aconselha evitar fumar sobretudo nas 4 horas anteriores à colheita, e um especialista em Medicina Geral e Familiar ouvido pelo Viral apontava, no mínimo, os trinta minutos anteriores. A indicação do seu laboratório é a que deve seguir.
A prudência não vem de um cigarro estragar um hemograma. O mesmo médico explicava que fumar faz subir ligeiramente a glicose e pode baixar um pouco o colesterol e os triglicéridos, tornando a análise mais «simpática» do que a realidade. E os especialistas de laboratório contam o tabaco, recente ou de longa data, entre os fatores que mudam o estado do corpo à volta de uma refeição; uma amostra em jejum deve mostrar o seu ponto de partida, não o último cigarro.
- Análise em jejumNada de cigarro, tabaco aquecido ou cigarro eletrónico durante todo o jejum, não só na última hora.
- Sem jejumPergunte ao laboratório e, se ninguém lhe der um número, espere pelo fim da colheita.
Tabaco aquecido, cigarro eletrónico e bolsas de nicotina
A maior parte das indicações fala de fumar e diz pouco sobre o tabaco aquecido, o cigarro eletrónico ou as bolsas de nicotina. A leitura prudente é tratá-los da mesma forma durante o jejum, já que a nicotina é o que partilham com o cigarro, e perguntar ao laboratório se a requisição for para algo específico.
Se usa algum destes produtos com regularidade, mencione-o ao lado do tabaco, pela mesma razão por que mencionaria os cigarros: é contexto para quem lê os resultados.
O que o tabaco regular faz ao hemograma
É a parte que surpreende quando se leem as próprias análises. Comparando fumadores saudáveis com não fumadores, os estudos encontram contagens de leucócitos mais altas, hemoglobina mais alta, hematócrito mais alto e um volume globular médio maior nos fumadores.
O efeito cresce com a quantidade fumada. Agrupados pela intensidade do consumo, os grandes fumadores tinham contagens mais altas de glóbulos vermelhos e brancos, com uma subida específica dos neutrófilos, ao lado de um perfil lipídico menos favorável: colesterol total, triglicéridos e LDL mais altos, HDL mais baixo.
No extremo, uma consulta de hematologia nos Estados Unidos acompanhou 40 adultos cujos leucócitos persistentemente altos foram atribuídos ao tabaco, depois de excluídas outras causas. Quase todos tinham os neutrófilos elevados, muitas vezes com outros tipos de glóbulos brancos também acima.
Por isso, um fumador pode chegar com os leucócitos assinalados como altos sem nenhuma infeção. A sinalização está certa; o alarme talvez não. O seu médico lê essa linha sabendo que fuma, ou deveria.
Fumar altera a hemoglobina glicada (HbA1c)?
Ligeiramente, sim. Numa análise conjunta de cerca de 35 000 adultos sem diabetes conhecida, os fumadores tinham uma HbA1c 0,10 pontos percentuais mais alta do que os que nunca fumaram, enquanto a glicemia em jejum não era diferente e a glicose duas horas depois de uma bebida açucarada era mais baixa.
A diferença é pequena para uma pessoa, mas fica perto dos limites de diagnóstico: na norma portuguesa, uma HbA1c igual ou superior a 6,5% é critério de diabetes. Os autores notam que isso muda as probabilidades de um fumador ser diagnosticado consoante a análise usada. Se a sua HbA1c está no limite e fuma, vale a pena falar disso com o médico.
As análises de rotina mostram que fuma?
Não diretamente. Nenhuma das linhas de um hemograma ou de uma bioquímica de rotina mede a nicotina; isso só acontece quando uma análise específica é pedida.
Mas o tabaco deixa marcas nas linhas que são medidas: leucócitos mais altos, hemoglobina mais alta, um perfil lipídico desviado para o lado errado. É por isso que ajuda dizer que fuma, e mais ou menos quanto. Não é uma confissão; é contexto que muda a forma como se lê uma linha.
O mesmo vale quando lê as análises sozinho. Os intervalos de referência são construídos com voluntários saudáveis, e mesmo assim cerca de 1 pessoa saudável em 20 fica fora deles. Um valor assinalado nos leucócitos de um fumador é uma comparação com pessoas que, na maioria, não fumavam.
Depois de deixar de fumar: a que ritmo mudam os números
Vários destes valores regressam ao longo de semanas a meses, não de dias. Na série de doentes acima, os leucócitos desceram depois de as pessoas reduzirem ou deixarem de fumar, com uma mediana de 8 semanas até a descida se notar, e entre 2 e 49 semanas.
Num estudo norte-americano que acompanhou fumadores numa tentativa de deixar de fumar, quem continuava sem fumar um ano depois tinha leucócitos mais baixos do que quem continuou, apesar de ter ganho algum peso.
Isso também quer dizer que não há nada a ganhar em ficar dois dias sem fumar para melhorar um resultado. A manhã da colheita merece ser respeitada; dois dias não são uma estratégia. Se umas análises acompanham o seu progresso, compare-as com as anteriores e não com o intervalo impresso. E, se quiser parar, o médico de família pode ajudar a preparar o dia.