Guia 2 · com as análises na mão
Análises ao sangue: o que mede cada grupo do seu boletim
As análises ao sangue mais pedidas chegam em grupos: hemograma, bioquímica com ionograma, perfil lipídico, função hepática, função renal, tiroide e ferro. O que cada grupo mede, e o que deixa por responder.
Os números-chave
- 251 891
- participantes na revisão Cochrane: os check-ups gerais não reduziram a mortalidade[1]
- 51,4%
- dos médicos de família inquiridos em Portugal pediam análises de «rotina»[3]
- 19,9%
- dos adultos em Portugal continental tinham anemia num estudo representativo[5]
- 84%
- dessas anemias não estavam diagnosticadas: as análises também encontram o que ninguém procurava[5]
Um grupo de análises, não uma lista solta
O que chega como trinta linhas numeradas é, na verdade, um punhado de pequenos grupos, e dentro de cada um as linhas leem-se umas com as outras. A hemoglobina com o VCM e a ferritina. A ALT (TGP) com a AST (TGO) e a gama-GT. A creatinina com a taxa de filtração estimada e com a água que se bebeu na véspera.
Por isso ler um boletim de análises de cima para baixo raramente resulta, e por isso cada página deste guia explica um grupo de análises, e não um marcador isolado.
Porque é que um valor isolado diz pouco
Um número fora do intervalo, lido sozinho, é o caminho mais curto para a conclusão errada. A mesma ALT elevada não quer dizer o mesmo depois de uma gripe, de um jantar de festa ou do início de um medicamento novo.
Por isso cada página desta secção parte do grupo: que linhas o compõem, qual se lê primeiro e que combinações merecem uma pergunta ao seu médico.
O que as análises de rotina mostram, e o que não mostram
As análises de rotina descrevem como alguns grandes sistemas estão a funcionar hoje: as células do sangue, o açúcar, os rins, o fígado, a tiroide, as gorduras e o ferro. Não são um rastreio de cancro, não procuram a maioria das infeções e não incluem a vitamina D ou a B12 se não tiverem sido pedidas. Como lembra a CUF, as análises ao sangue não são todas iguais: variam consoante a pessoa e o motivo do pedido.
Mais linhas não compram mais proteção. Uma revisão sistemática Cochrane de 17 ensaios aleatorizados e 251 891 participantes não encontrou efeito dos check-ups gerais oferecidos a adultos sobre a mortalidade total, por cancro ou cardiovascular. Num desses ensaios, quem foi convidado para o check-up recebeu mais 20% de diagnósticos novos em seis anos, sem que a evolução mudasse.
Os médicos de família portugueses estão divididos sobre o assunto. Num inquérito nacional, metade (51,4%) dizia pedir análises de «rotina», sobretudo colesterol total e glicemia; entre os que não as pediam, a razão mais citada era a falta de evidência científica.
Isto não quer dizer que as análises não encontrem nada. Num estudo representativo de Portugal continental, 19,9% dos adultos tinham anemia, e 84% desses casos não estavam diagnosticados.
Algumas linhas são frágeis por motivos técnicos, não médicos. O potássio é o caso clássico: glóbulos vermelhos danificados durante a colheita libertam potássio na amostra e fazem subir o resultado, e por isso os laboratórios medem o grau de hemólise e recusam amostras acima de um limite.
Quatro leituras que mudaram há pouco tempo
Quatro linhas leem-se hoje de outra forma do que há alguns anos, o que conta sempre que se compara um boletim novo com um antigo.
- Jejum para o colesterolDesde 2016, o consenso europeu aceita o perfil lipídico sem jejum como regra: depois de uma refeição normal, os triglicéridos mexem pouco e o HDL nada. Muitos laboratórios continuam, ainda assim, a pedir jejum.
- Metas de LDLAs orientações europeias de 2019 fixam a meta de LDL conforme o risco de cada pessoa, de menos de 116 mg/dL até menos de 55 mg/dL. Um boletim antigo pode trazer outro valor impresso.
- RinsA taxa de filtração é calculada, não medida, e a equação usada pelo laboratório mudou: nos EUA retirou-se em 2021 a variável raça, e na Europa foi publicada a equação EKFC. Duas taxas de anos diferentes podem não ter sido calculadas da mesma forma.
- TiroidePerante uma TSH elevada com T4 livre normal, uma revisão de 2023 não encontra prova de que o tratamento com hormona ajude; decidem a idade, os sintomas e o nível da TSH.
Por onde começar
Se o seu boletim é uma folha comprida, comece pelo guia do check-up geral, que explica como os grupos se encaixam e o que um check-up pode e não pode dizer. Depois vá ao grupo que tem as linhas assinaladas: o hemograma, o perfil lipídico, com o colesterol, o ionograma, a função hepática, a função renal, a tiroide ou o estudo do ferro.
Os artigos deste guia
Os seus resultados
Os resultados das suas análises, explicados linha a linha
Carregue os resultados das suas análises: em poucos minutos, o relatório completo ordena cada valor pelo que merece atenção, face aos valores de referência impressos pelo seu próprio laboratório, explica cada um e termina com um plano de ação e perguntas para o seu médico.
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Fontes
Recomendações clínicas, documentos de consenso e estudos revistos por pares. Cada número desta página vem de uma destas fontes. Não são citadas pré-publicações.
- Revisão sistemática
General health checks in adults for reducing morbidity and mortality from disease
- Revisão sistemática
- Estudo transversal português
- Informação de saúde (Portugal)
- Estudo populacional português
Prevalence of anaemia and iron deficiency in Portugal: the EMPIRE study
- Estudo de verificação
- Declaração de consenso europeia
- Recomendação europeia
- Recomendação
- Estudo de validação europeu
- Revisão