Leia isto antes da tabela
Esta tabela reúne os valores de referência habituais no adulto para as linhas que aparecem com mais frequência num boletim de análises: hemograma, glicose e HbA1c, rim e fígado, TSH, ferritina e colesterol LDL. Use-a como apoio à leitura, não como veredicto: o intervalo que se aplica ao seu valor é o que vem impresso ao lado dele, no seu boletim.
Para a maioria das análises não existe um intervalo nacional único. Cada laboratório define ou confirma o seu, porque o número depende do aparelho, dos reagentes, da calibração, do método e das pessoas que o laboratório serve. Dois laboratórios na mesma rua podem imprimir limites diferentes para a ferritina ou para a TSH e estarem ambos certos.
As diferenças não são um pormenor de arredondamento. Uma revisão de 2025 no Journal of the American Board of Family Medicine lembra que apenas três análises comuns estão harmonizadas entre métodos (colesterol, creatinina e HbA1c), e que a hemoglobina medida num aparelho de gasimetria pode dar 0,5 a 1,0 g/dL acima do mesmo sangue analisado no laboratório central.
Como um laboratório define um intervalo
Para definir um intervalo, o laboratório mede pelo menos 120 pessoas saudáveis de um grupo de idade, de um sexo e com um método, e guarda a faixa onde fica a maioria dos resultados. Cerca de uma pessoa saudável em vinte fica fora dessa faixa em cada análise. Não está doente: está nas pontas.
Daí uma consequência de que quase ninguém avisa. Num conjunto de 20 análises, a mesma revisão calcula que cerca de duas pessoas saudáveis em três terão pelo menos um resultado assinalado como alto ou baixo. Uma marca algures num boletim longo está mais perto da regra do que da exceção, e quanto mais longo o conjunto, mais marcas aparecem.
Isto importa porque os resultados laboratoriais orientam cerca de 70 % das decisões clínicas, segundo a revisão, e porque pequenas variações assinaladas como altas ou baixas causam aos doentes uma preocupação que a revisão considera injustificada. A marca está a fazer o seu trabalho: diz que o valor está na margem do que o laboratório viu em pessoas saudáveis, e nada mais.
Hemograma
Valores do adulto. As unidades variam entre laboratórios: 10⁹/L e 10³/µL são o mesmo número, enquanto g/dL e g/L diferem num fator de dez, por isso 13,5 g/dL e 135 g/L descrevem a mesma hemoglobina.
A hemoglobina é a linha onde o sexo mais pesa. Uma análise de 2024 com pessoas saudáveis de oito países, feita para apoiar a Organização Mundial da Saúde, situou o limite inferior em cerca de 12,0 g/dL nas mulheres não grávidas e 13,5 g/dL nos homens, com valores semelhantes nos dois sexos até à adolescência. A tabela de valores laboratoriais de referência da ACSS indica 13,5 a 17,5 g/dL para o homem; outros laboratórios imprimem 13,0. É exatamente este tipo de meio ponto que faz do seu boletim a referência.
Leia o hemograma como um grupo e não linha a linha: a hemoglobina com o VGM, que descreve o tamanho dos glóbulos vermelhos, e com a ferritina; os glóbulos brancos com a sua divisão por tipos; as plaquetas com o resto. Uma linha isolada um pouco fora da faixa é uma situação diferente de várias linhas a mexer em conjunto, e essa diferença é uma boa pergunta para levar ao médico. Em Portugal a pergunta não é teórica: no estudo EMPIRE, com 7980 adultos, 19,9 % tinham anemia e 84 % desses casos não estavam diagnosticados.
Bioquímica, fígado, rim
Quando uma meta substitui o intervalo, como no colesterol LDL, o número depende do seu risco cardiovascular e é fixado pelo médico, não pelo laboratório. Em Portugal, a maioria dos boletins apresenta a glicose e os lípidos em mg/dL; a tabela da ACSS mostra cada linha em unidades convencionais e no Sistema Internacional (mmol/L), e por isso a linha da glicose aparece com as duas.
A creatinina é produzida pelos músculos e eliminada pelos rins, e por isso todas as equações que a transformam em taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) usam a idade e o sexo como substitutos da massa muscular. A TFGe é um cálculo, não uma medição; quando o resultado é decisivo, a cistatina C ajuda a confirmá-lo.
A ALT é a linha onde os limites impressos mais variam. A tabela da ACSS indica 10 a 40 U/L, mas uma recomendação norte-americana de gastrenterologia situa a ALT verdadeiramente saudável entre 29 e 33 U/L nos homens e entre 19 e 25 U/L nas mulheres, abaixo do limite que muitos laboratórios imprimem, e aconselha a avaliar os valores acima disso. A mesma ALT pode, portanto, ser assinalada por um laboratório e não por outro.
A ferritina tem uma armadilha. Reflete as reservas de ferro, mas também sobe com a inflamação, por isso uma ferritina tranquilizadora durante uma infeção ou uma doença inflamatória pode esconder falta de ferro. Um consenso de peritos suíços considera 30 µg/L (o mesmo número em ng/mL) um limiar fiável de falta de ferro apenas em pessoas sem inflamação.
| Análise | Intervalo habitual | Notas |
|---|---|---|
| Glicose em jejum | 70 – 110 mg/dL · 3,8 – 6,1 mmol/L | Só em jejum. Entre 110 e 125: anomalia da glicemia em jejum (OMS). |
| HbA1c | ≤ 6 % | Média de cerca de três meses. Não exige jejum. |
| Creatinina | 0,6 – 1,2 mg/dL | Depende da massa muscular. Leia-a com a TFGe. |
| TFGe | > 90 mL/min/1,73 m² | Estimativa calculada por fórmula, não uma medição. |
| ALT | 10 – 40 U/L | Leia-a com a AST e a GGT, nunca sozinha. |
| TSH | 0,5 – 5,0 mU/L | Segue um ritmo diário. Prefira a colheita de manhã. |
| Ferritina | 15 – 200 ng/mL (homem) | Sobe com a inflamação, o que pode esconder uma falta de ferro. |
| Colesterol LDL | meta, não intervalo | Abaixo de 116 mg/dL (3,0 mmol/L) em baixo risco; metas mais baixas acima disso. |
Intervalos, limiares e metas
Nem todos os números de uma tabela como esta são intervalos de referência, e confundi-los causa muita preocupação desnecessária. Aparecem nos boletins quatro tipos de número, e cada um responde a uma pergunta diferente.
A glicose em jejum mostra bem a diferença. A OMS situa a anomalia da glicemia em jejum entre 110 e 125 mg/dL; a Associação Americana de Diabetes começa nos 100. Uma glicose de 105 mg/dL pode, por isso, ser classificada de forma diferente consoante o critério. O estudo PREVADIAB, que seguiu os critérios da OMS, encontrou 11,7 % de diabetes e 23,3 % de pré-diabetes entre os 20 e os 79 anos em Portugal. A HbA1c não exige jejum, e desde 2016 as sociedades europeias de laboratório e de aterosclerose consideram que o perfil lipídico de rotina também não.
- 110–125
- Glicose em jejum, em mg/dL, que a OMS classifica como anomalia da glicemia em jejum.[4]
- 23,3 %
- Adultos dos 20 aos 79 anos com pré-diabetes em Portugal, no estudo PREVADIAB.[6]
- < 55
- Meta de LDL, em mg/dL, nos adultos de risco muito alto na recomendação europeia de 2019.[10]
- Intervalo de referênciaOnde fica a maioria das pessoas saudáveis com o método daquele laboratório. Ficar um pouco de fora é frequente em pessoas saudáveis.
- Limiar de diagnósticoUm valor acordado por uma sociedade médica. A diabetes diagnostica-se a partir de uma glicose em jejum de 126 mg/dL ou de uma HbA1c de 6,5 %.
- Meta de tratamentoUm objetivo ligado ao seu risco. A recomendação europeia de 2019 fixa o LDL abaixo de 116 mg/dL nos adultos de baixo risco, e mais baixo a cada degrau de risco.
- Valor críticoUm resultado tão afastado que as normas de acreditação exigem ao laboratório que o comunique sem demora ao médico responsável.
O que desloca um intervalo
O sexo e a idade mudam várias linhas de forma direta. Os limites da hemoglobina são semelhantes em rapazes e raparigas até à adolescência e depois separam-se; a gravidez volta a baixá-los, para cerca de 11,0 g/dL no primeiro trimestre na análise de 2024. As crianças têm valores próprios para muitas linhas, incluindo várias enzimas, por isso as análises de uma criança nunca se leem com uma tabela do adulto como esta.
Há mais duas deslocações que não se veem no boletim. A primeira é o método: mudar de laboratório a meio de um seguimento pode mexer num resultado sem que nada tenha mudado em si. A segunda é o relógio. A TSH é mais alta de madrugada e, num grande conjunto de dados hospitalares, chegava a estar cerca de um quarto mais baixa ao início da tarde do que às 7 da manhã; por isso, a colheita de manhã torna os resultados mais fáceis de comparar.
A preparação é a terceira. As recomendações europeias sobre colheita de sangue consideram a preparação do doente, jejum incluído, parte de um resultado válido. Se um valor assinalado pode ter sido mexido por uma refeição, pela hora do dia ou por uma mudança de laboratório, é razoável perguntar se deve ser repetido nas mesmas condições.
Valores «ótimos» e sinais de alarme
As tabelas que prometem valores ótimos respondem a outra pergunta. Um intervalo de referência descreve pessoas saudáveis, enquanto alguns limiares são escolhidos para um fim e podem ser diferentes para a mesma análise. A revisão de medicina familiar dá o exemplo dos folatos: um nível previne a anemia, outro mais alto é preciso para normalizar a homocisteína. Nenhum deles é o intervalo do seu laboratório, e nenhum deve orientar um tratamento sem o seu médico.
Os verdadeiros sinais de alarme têm menos a ver com uma letra do que com padrões: um valor muito longe do intervalo, várias linhas relacionadas a mexer no mesmo sentido, uma mudança clara face ao seu resultado anterior, ou um resultado anormal acompanhado de sintomas. São estas as situações a levar rapidamente ao médico. Para os resultados perigosamente afastados, as normas internacionais de acreditação exigem que o laboratório tenha um circuito para os comunicar a tempo ao médico, por isso os achados mais urgentes estão pensados para chegar a um profissional sem dependerem de si.
Um conjunto maior de análises não é mais seguro. Uma revisão Cochrane dos exames de saúde gerais, com 251 891 adultos, encontrou pouco ou nenhum efeito sobre a mortalidade, enquanto cada linha a mais traz mais uma possibilidade de uma marca para explicar.
O que um boletim poderia dizer-lhe
Um valor, um intervalo e uma marca deixam-no com a parte mais difícil: decidir se aquilo importa. A revisão de medicina familiar defende que os boletins o digam por palavras simples: sem preocupação imediata, a discutir na próxima consulta, ou a falar com o médico logo que possível.
O formato também ajuda. Uma revisão sistemática de 2024, com 18 estudos, concluiu que mostrar um resultado como uma barra horizontal ao lado do intervalo melhora a compreensão e torna as pessoas menos inclinadas a pesquisar na internet ou a contactar o médico do que números com intervalo. A maioria dos boletins ainda não oferece nem uma coisa nem outra, por isso as perguntas úteis ficam do seu lado.
Leve quatro à consulta: a que distância do limite está o valor, em que sentido, que linhas relacionadas concordam com ele, e como se compara com o seu último resultado. São elas que transformam uma tabela geral como esta numa conversa sobre si.