O que o asterisco diz, e só isso
Nas análises ao sangue, um asterisco ao lado de um valor quer dizer que esse valor está fora do intervalo de referência impresso ao lado. A marca é produzida por um programa que compara dois números, o seu valor e o intervalo, e não diz mais nada.
Consoante o laboratório, a mesma comparação aparece como asterisco, como valor a negrito, como seta para cima ou para baixo, ou como as letras H (alto) e L (baixo), herdadas do inglês. A norma HL7, usada para trocar dados de saúde entre sistemas, define assim as letras: H é um resultado acima do limite superior do intervalo, L um resultado abaixo do limite inferior. A ordem de leitura mantém-se: análise, valor, unidade, intervalo, marca.
Essa automatização é a vantagem e também o limite. A marca conhece o valor e o intervalo. Não conhece os seus medicamentos, se estava em jejum, se fuma, a hora da colheita nem a razão por que a análise foi pedida. Um médico a ler a mesma linha traz tudo o que o sistema não tinha.
Negrito, setas, cor e letras: as formas de assinalar
Nenhuma destas convenções é mais séria do que outra. São escolhas de apresentação e todas codificam a mesma comparação. Alguns boletins não assinalam nada e deixam ao leitor a tarefa de comparar o valor com o intervalo.
A cor pode até enganar: uma revisão sistemática de 2026, com 39 estudos, concluiu que os sinais visuais nos resultados online podem fazer desvios pequenos parecerem mais alarmantes do que são, sem assinalar os achados que realmente importam.
- Asterisco ou negritoO valor está fora do intervalo. Não diz em que sentido nem a que distância; para isso, olhe para os dois números.
- Seta, H ou LAcrescentam o sentido: acima ou abaixo do intervalo. Continuam sem dizer a distância.
- HH, LL ou dois asteriscosEm alguns sistemas, assinalam um valor crítico, afastado ao ponto de justificar ação imediata. A norma HL7 usa HH e LL para isso.
- < ou >Fora da escala: abaixo do que o método consegue detetar, ou acima do que consegue medir. Descrevem os limites da análise, não a si.
Uma sigla não é uma marca
Uma confusão frequente vem das siglas, não das marcas. Hb (hemoglobina), Hct (hematócrito) ou HGM (hemoglobina globular média), que vários laboratórios chamam HCM, começam por H e fazem parte do hemograma completo. Nenhuma destas letras diz alto ou baixo; a marca, quando existe, aparece mais à frente na linha, ao lado do valor.
A marca não diz a distância
É a coisa mais útil a perceber sobre um asterisco. Um valor uma unidade fora do intervalo e um valor dez vezes fora levam a mesma marca.
Plaquetas a 145 com um limite inferior de 150 e plaquetas a 40 levam ambas um asterisco. Uma ferritina de 28 com um limite de 30 e uma ferritina de 4 também. Os boletins parecem iguais na marca e descrevem situações completamente diferentes.
A primeira pergunta ao ver uma marca nunca é o que ela significa. É a que distância está o valor, uma subtração que pode fazer com os dois números da linha, e se as linhas relacionadas ao lado concordam.
Porque é que tantos resultados vêm assinalados
Os intervalos são construídos de forma a que cerca de uma pessoa saudável em vinte fique fora deles em cada análise. Num conjunto de 20 análises, uma revisão de 2025 no Journal of the American Board of Family Medicine calcula que cerca de duas pessoas saudáveis em três terão pelo menos um resultado assinalado. Fora do intervalo não é o mesmo que doente.
Os valores no limite são onde as pessoas mais hesitam. A revisão de 2026 concluiu que os doentes valorizam o acesso rápido aos resultados, mas acham muitas vezes difícil avaliar a importância de valores no limite ou saber quando é preciso seguimento, e que muitos acabam por contactar o centro de saúde para saber se alguém já os viu.
O que fazer quando vê um asterisco
Hoje muitas pessoas leem os resultados antes do médico, por exemplo na App SNS 24, onde ficaram disponíveis mais de 20 milhões de resultados em oito meses. Num inquérito norte-americano a 8139 doentes, 16,5 % dos que tinham resultados anormais disseram que lê-los primeiro aumentou a preocupação, e mesmo assim quase todos preferiam recebê-los de imediato.
Comece pela distância, depois pelas linhas vizinhas e depois pela sua história: a que distância do limite está o valor, as linhas relacionadas concordam, e estava assinalado da última vez? Anote o que possa tê-lo mexido, da hora da colheita a um medicamento novo, e pergunte ao seu médico o que a marca quer dizer no seu caso.
O que uma marca deveria dizer
A revisão de 2025 defende que os boletins vão além de um símbolo e digam a importância por palavras simples: sem preocupação imediata, a discutir na próxima consulta, ou a falar com o médico logo que possível.
Mostrar o valor numa barra ao lado do intervalo também ajuda. Uma revisão de 2024 com 18 estudos concluiu que as barras horizontais melhoram a compreensão e tornam as pessoas menos propensas a pesquisar na internet ou a contactar o médico do que números com intervalo. Até os boletins o fazerem, o asterisco só lhe diz que houve uma comparação; decidir se importa continua a ser consigo e com o seu médico.