A resposta curta

Quando uma análise exige jejum, a indicação habitual em Portugal é de 8 a 12 horas, só com água. A Associação Portuguesa de Analistas Clínicos resume assim: regra geral, 8 horas são suficientes; para o colesterol e os triglicéridos recomendam-se 10 a 12 horas; e o jejum não deve ultrapassar as 12 horas.

Por isso, quantas horas de jejum para fazer análises depende do que está na requisição. A lista das análises que precisam mesmo de jejum é curta. A maior parte das análises de rotina pode ser feita depois de comer, e o próprio colesterol já não exige jejum por defeito segundo as sociedades europeias, embora muitos laboratórios portugueses ainda o peçam.

A razão é mecânica. Uma refeição provoca, durante horas, alterações claras no sangue, a começar pelo açúcar e pelas gorduras. Uma glicemia em jejum colhida depois do pequeno-almoço mede o pequeno-almoço, não o seu metabolismo. Já a contagem dos glóbulos vermelhos não se mexe dessa forma, e é por isso que um hemograma pode ser feito a qualquer hora do dia.

Há uma regra que vale mais do que qualquer tabela, esta incluída: siga a indicação escrita na requisição ou dada pelo laboratório. Se lhe pediram jejum e comeu, diga-o antes da colheita. Uma glicemia em jejum lida numa amostra de quem comeu não fica ligeiramente errada: deixa de poder ser interpretada.

O que é, de facto, estar em jejum

Não comer nem beber nada além de água durante o número de horas indicado, até ao momento da colheita. Os laboratórios portugueses pedem também que não masque pastilha elástica, mesmo sem açúcar, que não fume e que não faça exercício físico durante esse período, porque cada um destes hábitos pode alterar os resultados.

Parece evidente, mas não é. Quando investigadores questionaram 150 doentes à chegada ao laboratório, só 39% sabiam definir corretamente o jejum, e 46% achavam que bastava a última refeição ter sido na véspera, fosse a que horas fosse.

Parte da confusão não é sua. Os próprios especialistas de laboratório reconhecem que a definição de jejum variava de instituição para instituição e de artigo para artigo, e foi por isso que um grupo de trabalho europeu se propôs harmonizá-la.

Na prática: acabe de jantar à noite, beba água normalmente durante a noite e de manhã, e não tome mais nada até à colheita.

52%
dos doentes do mesmo inquérito não tinham recebido qualquer indicação sobre o jejum.[10]
60%
dos doentes chegaram de facto bem preparados para uma análise em jejum.[10]

Quantas horas de jejum, análise a análise

Use esta tabela como guia e confirme-a com a sua requisição: os protocolos variam de laboratório para laboratório em Portugal, e vários ainda não seguem a recomendação europeia sobre os lípidos.

Alguns laboratórios pedem também 8 horas para o perfil metabólico básico, que inclui a glicose. Basta uma linha da requisição precisar de jejum para que toda a colheita passe a ser feita em jejum.

AnáliseJejumO que muda se comer
Glicemia em jejum8 a 10 hSobe minutos depois de uma refeição. A análise perde o sentido.
Perfil lipídico10 a 12 h em muitos laboratórios; dispensável por rotina segundo o consenso europeuOs triglicéridos sobem cerca de 26 mg/dL; o LDL e o HDL quase não mudam.
HemogramaNão precisaUma refeição ligeira mexe pouco em algumas contagens, não o suficiente para exigir jejum.
Função hepáticaEm regra, nãoGeralmente estável; uma refeição muito gorda pode alterar alguns valores.
Função renalVaria: alguns laboratórios pedem 8 a 12 hA creatinina muda pouco depois de uma refeição normal.
TiroideNão precisaA TSH varia com a hora do dia e, menos, com as refeições. Prefira a manhã.
Ferro e ferritina12 h, de manhãO ferro varia ao longo do dia e sobe depois de comer; pergunte pelos suplementos.
HbA1cNão precisaReflete três meses. Uma refeição não se nota.

8 horas de jejum chegam para a glicemia?

Sim. Os laboratórios portugueses pedem 8 a 10 horas antes de uma glicemia, e um jejum noturno, desde o jantar, cobre esse intervalo com folga. A análise faz-se normalmente de manhã.

A precisão conta porque os limites estão próximos uns dos outros. Na norma da Direção-Geral da Saúde, uma glicemia em jejum igual ou superior a 126 mg/dL é critério de diabetes, e um valor entre 110 e 125 mg/dL corresponde a uma anomalia da glicemia de jejum. Uma amostra que não estava realmente em jejum pode empurrar um resultado para o outro lado de uma destas linhas.

A mesma norma acrescenta um cuidado que tranquiliza: numa pessoa sem sintomas, o diagnóstico de diabetes não se faz com um único valor alterado de glicemia em jejum ou de HbA1c; tem de ser confirmado numa segunda análise, uma a duas semanas depois.

A HbA1c funciona de outra forma: pode comer e beber antes dela. Se a requisição incluir as duas, é a glicemia em jejum que dita a regra da manhã.

Quantas horas de jejum para as análises ao colesterol

Muitas vezes, nenhuma. Durante décadas, uma análise ao colesterol significava jejum de uma noite. Desde 2016, a Sociedade Europeia de Aterosclerose e a Federação Europeia de Química Clínica e Medicina Laboratorial recomendam o contrário: medir os lípidos sem jejum, por defeito.

As diferenças são pequenas. Depois de uma refeição normal, as maiores variações médias são de cerca de +26 mg/dL nos triglicéridos e −8 mg/dL no colesterol total e no LDL, enquanto o colesterol HDL, a apolipoproteína B e a lipoproteína(a) praticamente não mudam. Os valores sem jejum preveem a doença cardiovascular tão bem como os outros, e passamos a maior parte do dia depois de ter comido.

O jejum só volta a ser considerado numa situação: quando os triglicéridos sem jejum ultrapassam 440 mg/dL (5 mmol/L). Recomendações da Dinamarca, do Reino Unido, da Europa, do Canadá e dos Estados Unidos aceitam, de uma forma ou de outra, o perfil lipídico sem jejum.

Em Portugal, a prática ainda não acompanhou totalmente. A CUF indica habitualmente 9 a 12 horas antes do colesterol, mas admite que o jejum pode não ser necessário em todos os casos; a Joaquim Chaves Saúde considera ideais 12 horas para os lípidos. Se o seu laboratório ou o seu médico pedirem jejum, cumpra-o: é o protocolo deles, e pode haver uma razão própria do seu caso, como triglicéridos muito altos numa análise anterior.

Água sim, café não

Pode beber água durante todo o jejum, incluindo na manhã da colheita. Sumos, café, chá, leite e refrigerantes não, porque o que contêm chega à corrente sanguínea e pode afetar os resultados.

O café surpreende, mesmo a bica sem açúcar. Num ensaio cruzado, homens saudáveis que beberam café com cafeína uma hora antes de uma refeição tiveram uma resposta do açúcar no sangue 147% a 216% maior do que com café descafeinado, e a sensibilidade à insulina caiu até 40%. Noutro ensaio, café bebido meia hora antes de uma bebida açucarada fez subir a insulina, em comparação com água.

A evidência não aponta toda no mesmo sentido. Num estudo de 2023 com 27 voluntários, um café uma hora antes da colheita não provocou alterações clinicamente relevantes nas análises bioquímicas de rotina nem no hemograma. É tranquilizador se escorregou, mas a regra mantém-se, porque existe para proteger a glicemia em jejum.

O álcool tem muitas vezes o seu próprio prazo, mais longo do que o jejum: a Joaquim Chaves Saúde pede que seja evitado nas 24 horas anteriores à colheita. Se ninguém lhe disse nada, pergunte.

Na véspera

Jante normalmente. Nenhum alimento é proibido, mas os especialistas de laboratório lembram que a resposta do corpo a uma refeição depende do que se comeu e de quando, e também do tabaco, do café e do álcool. Um jantar invulgarmente pesado, tardio ou bem regado é o único a evitar.

Depois, conte para trás a partir da hora marcada. É o exemplo dado pela CUF: para um jejum de 12 horas e uma colheita às 9 da manhã, não coma nada depois das 21 horas da véspera. Para uma colheita às 8 horas e um jejum de 8 horas, a última refeição pode ser à meia-noite. Uma marcação cedo põe quase todo o jejum dentro do sono.

  1. Marque a hora limiteCalcule, antes de a noite começar, a última hora a que pode comer, a partir da hora da colheita.
  2. Continue a beber águaUm ou dois copos de manhã não fazem mal e evitam que chegue desidratado.
  3. Deixe os extras para depoisPastilha elástica, rebuçados, café, chá e cigarros esperam pelo fim da colheita.
  4. Leve um lancheTer algo para comer a seguir torna a espera mais fácil, sobretudo se tende a sentir-se fraco.

Medicação: não suspenda nada por iniciativa própria

Tome a medicação habitual com água, salvo indicação contrária de quem a receitou. Os laboratórios portugueses pedem que informe a técnica de colheita de todos os medicamentos que toma, e que fale com o médico antes de suspender algum. Veja o que fazer com os medicamentos habituais antes das análises.

A exceção mais clara é a diabetes. A insulina e alguns comprimidos para a diabetes, como as sulfonilureias, podem baixar demasiado o açúcar no sangue, e mantê-los durante um jejum para análises aumenta esse risco. Se os toma, peça ao médico um plano para a manhã da colheita.

Os suplementos também contam. Se a requisição incluir o estudo do ferro, o laboratório pode pedir 12 horas de jejum e uma colheita de manhã; pergunte se deve interromper um suplemento de ferro, e durante quanto tempo. Seja o que for que tome, diga-o no laboratório.

Se comeu ou bebeu por engano

Diga-o ao pessoal antes da colheita, não depois. Pode ser preciso remarcar as análises que exigem jejum.

Raramente é uma viagem perdida. Muitas linhas de uma requisição de rotina não precisam de jejum, e o laboratório pode dizer-lhe se essas podem ser colhidas logo, ficando as outras para outro dia. O que não deve fazer é ficar calado: uma glicemia lida como sendo em jejum, sem o ser, pode sugerir um problema que não tem, ou esconder um que tem.