A resposta curta
Quando um exame exige jejum, a orientação mais comum no Brasil é de 8 a 12 horas sem comer, só com água. É a regra da glicemia de jejum: a Sociedade Brasileira de Diabetes considera jejum a interrupção da ingestão de calorias por 8 a 12 horas antes da coleta.
Para o restante do pedido, a exigência costuma ser menor. O Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, da rede pública, orienta um mínimo de quatro horas de jejum para a maioria dos exames de sangue em adultos, reserva as 8 a 12 horas para os exames que realmente precisam e desaconselha passar de 14 horas sem comer.
O motivo é simples. Uma refeição muda o sangue durante horas, a começar pelo açúcar e pelas gorduras. Uma glicemia de jejum colhida depois do café da manhã mede o café da manhã, não o seu metabolismo. Já o hemograma completo muda pouco com uma refeição leve, e muitos laboratórios o colhem com poucas horas de jejum.
Uma regra vale mais do que qualquer tabela, inclusive esta: siga a orientação do seu pedido médico ou do seu laboratório. Se ela diz jejum e você comeu, avise antes da coleta. Uma glicemia lida como de jejum, sem ter sido, não fica um pouco errada: ela simplesmente não pode ser interpretada.
O que conta como jejum
Jejum é não comer nada e não beber nada além de água pelo tempo indicado, até o momento da coleta. A recomendação latino-americana e europeia de coleta, traduzida para o português pelo Programa Nacional de Controle de Qualidade, detalha os cuidados: água liberada, nada de café, chá ou bebida energética pela manhã, nada de cigarro nem de chiclete, e nada de álcool nas 24 horas anteriores.
Parece óbvio, mas não é. Quando pesquisadores entrevistaram 150 pacientes que chegavam ao laboratório para colher sangue, só 39% souberam definir jejum corretamente, e 46% achavam que bastava a última refeição ter sido no dia anterior, a qualquer hora.
Na prática: jante normalmente, beba água à noite e de manhã como de costume, e não coloque mais nada na boca até a agulha.
Jejum exame por exame
Use a tabela como guia e confira com o seu pedido: os protocolos ainda variam de um laboratório para outro, e alguns continuam pedindo 12 horas para o colesterol.
Quando uma única linha do pedido exige jejum, a coleta inteira passa a ser em jejum, porque o laboratório colhe tudo de uma vez. O consenso brasileiro de 2016 prevê exatamente esse caso: se outros exames do mesmo pedido pedem 12 horas, o laboratório pode colher também o perfil lipídico em jejum.
| Exame | Jejum | O que muda se você comer |
|---|---|---|
| Glicemia de jejum | 8 a 12 h | Sobe minutos depois de uma refeição. O exame perde o sentido. |
| Colesterol e triglicerídeos | Não obrigatório desde 2016 | Só os triglicerídeos sobem de forma relevante. O laudo traz valores de referência com e sem jejum. |
| Hemograma | Sem jejum ou poucas horas | Um café da manhã mexe em alguns valores nas horas seguintes; por isso há laboratórios que pedem 3 a 4 horas. |
| Ureia e creatinina | Em geral, 4 h bastam | Uma refeição pode mexer um pouco nos valores; a regra geral de 4 horas costuma bastar. |
| TSH e T4 livre | Sem jejum, de preferência de manhã | Um café da manhã pode mexer levemente nos dois valores; siga o laboratório. |
| Ferro sérico | Muitas vezes 8 a 12 h, de manhã | O ferro varia ao longo do dia e sobe depois das refeições. |
| Hemoglobina glicada | Sem jejum | Reflete a média de 2 a 3 meses. Uma refeição não aparece nela. |
8 horas de jejum bastam para a glicemia?
Sim. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes define o jejum como 8 a 12 horas sem ingerir calorias, e o exame costuma ser colhido de manhã. Um jejum que começa depois do jantar cobre isso com folga.
A precisão importa porque os pontos de corte são próximos. Abaixo de 100 mg/dL é normal, de 100 a 125 mg/dL é a faixa de pré-diabetes e a partir de 126 mg/dL entra na faixa de diabetes, que precisa ser confirmada por um segundo exame. Uma amostra que não estava realmente em jejum pode empurrar o resultado para o outro lado de uma dessas linhas.
A hemoglobina glicada dispensa jejum: você pode comer antes. Se o pedido traz as duas, é a glicemia que manda na manhã.
Colesterol: o Brasil mudou a regra em 2016
Durante décadas, exame de colesterol era sinônimo de 12 horas de jejum. Em 2016, cinco entidades brasileiras (a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial, a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas, o Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia, a Sociedade Brasileira de Diabetes e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) publicaram um consenso que permite colher o perfil lipídico sem jejum.
Os motivos são práticos e clínicos. Passamos a maior parte do dia alimentados, então o valor sem jejum representa melhor o risco do dia a dia. O colesterol total, o HDL e o LDL praticamente não mudam depois de uma refeição comum; só os triglicerídeos sobem, e por isso o laudo traz dois valores desejáveis para eles: abaixo de 150 mg/dL em jejum e abaixo de 175 mg/dL sem jejum. O consenso lembra ainda que o jejum prolongado é arriscado para quem usa insulina, para gestantes, crianças e idosos.
O jejum de 12 horas volta em situações específicas: quando os triglicerídeos sem jejum passam de 440 mg/dL, o médico pede uma nova dosagem em jejum. A Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025 manteve essa regra e pede que o laboratório informe no laudo se a coleta foi feita com ou sem jejum.
Se o seu médico ou o laboratório ainda pedir jejum para o colesterol, siga a orientação. Pode haver um motivo ligado a você, como triglicerídeos muito altos num exame anterior, ou simplesmente outro exame do mesmo pedido que exige jejum.
Água sim, café não
Água pura está liberada durante todo o jejum, inclusive na manhã da coleta. O Hospital Universitário da USP resume: água não quebra o jejum, mas convém tomá-la com moderação. Suco, refrigerante, chá, chimarrão e café ficam para depois da coleta.
O café surpreende, mesmo puro e sem açúcar. Num estudo cruzado, homens saudáveis que tomaram café com cafeína uma hora antes de uma refeição tiveram uma resposta de açúcar no sangue de 147% a 216% maior do que com café descafeinado. Em outro estudo, café tomado meia hora antes de uma bebida com glicose elevou a insulina em comparação com água.
A evidência não vai toda no mesmo sentido. Num estudo argentino de 2023 com 27 voluntários, uma xícara de café uma hora antes da coleta não provocou mudanças clinicamente relevantes nos exames de rotina. É um alívio se você escorregou, mas a regra não mudou: ela existe para proteger a glicemia de jejum.
O álcool tem prazo próprio, mais longo do que o jejum: a recomendação de coleta pede 24 horas sem beber, e o HU-USP orienta três dias sem bebida alcoólica antes de dosar triglicerídeos.
Na véspera
Jante normalmente. Nenhum alimento é proibido, mas a diretriz brasileira de dislipidemias lembra que fugir da dieta habitual, com álcool ou uma refeição muito gordurosa, e o exercício extenuante na véspera podem alterar o perfil lipídico por algum tempo. O hospital da UFTM vai na mesma linha: quem faz uma dieta rígida na véspera pode ter um resultado falsamente baixo.
Depois, conte para trás a partir do horário da coleta. Para uma coleta às 7 h com orientação de 12 horas, a última refeição é às 19 h da véspera; com 8 horas, às 23 h. Coletas cedo deixam a maior parte do jejum dentro do sono. E não exagere no outro sentido: passar de 14 horas sem comer também altera os exames.
- Defina o horário limiteCalcule a hora da última refeição a partir do horário da coleta, antes de a noite começar.
- Continue bebendo águaUm ou dois copos de manhã estão liberados e evitam chegar com sede.
- Deixe os extras de ladoChiclete, bala, café, chá, chimarrão e cigarro esperam a coleta.
- Leve um lancheAlgo para comer logo depois facilita a espera, sobretudo se você costuma passar mal em jejum.
Remédios: não suspenda nada por conta própria
Tome o tratamento habitual com água, salvo orientação contrária de quem o prescreveu. O HU-USP é direto: só o médico pode orientar a suspensão de um remédio antes da coleta; o que você deve fazer é avisar o laboratório de tudo o que usa. Os remédios de uso contínuo têm poucas exceções, explicadas em página própria.
A exceção mais importante é o diabetes. Insulina e alguns comprimidos para diabetes podem baixar demais o açúcar durante um jejum longo; o próprio consenso brasileiro cita esse risco de hipoglicemia como um dos motivos para flexibilizar o jejum. Se você usa esses remédios, peça ao médico um plano para a manhã do exame.
Suplementos também contam. Se o pedido traz exames de ferro, pergunte se deve pausar o suplemento de ferro, e por quanto tempo. Seja o que for que você toma, conte ao laboratório.
Se comeu ou bebeu sem querer
Avise a equipe antes da coleta, não depois. A recomendação de coleta é clara: o estado de jejum deve ser verificado antes da coleta e, se o sangue for colhido sem o preparo adequado, isso deve ficar registrado para que o resultado seja interpretado corretamente.
Raramente é uma viagem perdida. Muitos exames do pedido não precisam de jejum, e o laboratório pode colher esses na hora e remarcar só os outros. O que não se deve fazer é ficar calado: uma glicemia lida como de jejum, sem ter sido, pode sugerir um problema que você não tem.