A resposta curta
Sim, na maioria dos casos: tome os remédios de uso contínuo com água, como sempre. O Hospital Universitário da USP responde à pergunta “devo suspender os remédios antes da coleta?” com um não: só o médico pode orientar a suspensão. O hospital da UFTM diz o mesmo e pede que você avise a atendente, no cadastro, de todos os medicamentos em uso.
As exceções são poucas e conhecidas: remédios que baixam o açúcar durante um jejum para exame de sangue, algumas doses que é melhor tomar depois da coleta e suplementos que atrapalham a própria medição. As seções abaixo mostram como reconhecer esses casos.
Nunca suspenda um tratamento por conta própria
Não pare um remédio para o número ficar mais bonito. Interromper um anticoagulante, um remédio de pressão, um anticonvulsivante ou a reposição de hormônio da tireoide pode trazer um risco real, enquanto o número só trazia um incômodo. Se um tratamento precisa ser pausado, quem o prescreveu diz, de preferência por escrito, e diz por quanto tempo.
Tomar os comprimidos com um copo de água também não quebra o jejum: a água pura é permitida o tempo todo, até a coleta.
Remédios para diabetes e exame em jejum
Esta é a exceção mais importante para a sua segurança. A insulina e alguns comprimidos para diabetes baixam o açúcar no sangue, e a orientação do governo americano alerta que continuar usando remédios que baixam a glicose durante um jejum para exame aumenta o risco de hipoglicemia. O consenso brasileiro de lípides cita esse mesmo risco, em quem usa insulina, como um dos motivos para liberar o colesterol sem jejum.
Se você usa insulina ou algum comprimido para diabetes, como a metformina (Glifage e outros), pergunte ao médico antes do dia do exame o que fazer naquela manhã: tomar, reduzir ou adiar a dose. Marque o horário mais cedo possível, leve algo para comer logo depois e avise a equipe na hora se passar mal durante a espera.
Levotiroxina (Puran T4, Euthyrox, Synthroid) e outras doses com hora marcada
Alguns tratamentos não são suspensos, mas ajustados no horário, para que a amostra mostre o seu nível habitual e não um pico. A levotiroxina é o exemplo mais comum: depois de uma dose, os níveis de tiroxina (T4) e T4 livre no sangue sobem cerca de 15%, com pico perto de quatro horas depois. Um T4 livre colhido nessa janela pode sair mais alto do que o seu nível de sempre.
Por isso, no dia do exame de tireoide, é comum o laboratório ou o médico pedir para tomar o comprimido logo depois da coleta. Siga a orientação que você recebeu; se não recebeu nenhuma, pergunte. De qualquer forma, a dose é tomada, só um pouco mais tarde naquela manhã.
A mesma lógica vale sempre que o exame mede o nível do próprio remédio, e não o seu efeito. O pedido deve dizer quando tomar a dose em relação à coleta; se não disser, pergunte antes de engolir o comprimido.
Biotina, ferro e outros suplementos
Suplemento não é neutro só porque é vendido sem receita. A biotina é o caso mais claro: muitos exames de laboratório usam uma reação química baseada em biotina, e o excesso dela no sangue pode atrapalhar o método de medida, e não o seu corpo.
Num estudo americano, seis adultos saudáveis tomaram 10 mg de biotina por dia durante uma semana. Depois disso, 9 dos 23 exames baseados em biotina que foram testados deram resultados potencialmente enganosos, uns falsamente altos, outros falsamente baixos. Entre os exames estudados estavam hormônios da tireoide, o paratormônio e a vitamina D.
O ferro é o outro caso frequente. Se há exames de ferro no pedido, pergunte se deve pausar o suplemento de ferro, e por quanto tempo.
Quais remédios alteram o exame de sangue?
Muitos, de jeitos diferentes, e por isso a lista que você leva vale mais do que qualquer tabela. O HU-USP cita os antibióticos e os anti-inflamatórios, que interferem nos testes de coagulação pedidos antes de cirurgias.
A dipirona, tão usada no Brasil, é outro exemplo. Num estudo de laboratório, quantidades crescentes de metamizol (o nome químico da dipirona) adicionadas ao soro baixaram a creatinina medida pelo método enzimático, o que não aconteceu com o método de Jaffe. Se você tomou dipirona e tem creatinina no pedido, conte ao laboratório.
Nenhum desses casos torna o exame inútil; eles tornam o contexto essencial. Os resultados de laboratório orientam cerca de 70% das decisões clínicas, e um resultado lido sem saber o que você toma pode levar a uma decisão errada.
O que contar ao laboratório
Leve uma lista, ou uma foto das caixas. A SBPC/ML trata o preparo do paciente como parte da qualidade do exame, e o que você toma faz parte desse preparo.
Se você parou algum remédio por conta própria antes de ler esta página, diga. Um resultado lido como se você tivesse tomado o tratamento, sem ter tomado, é pior do que um resultado com uma observação.
E, se ninguém lhe deu orientação nenhuma, você não está sozinho: numa pesquisa com pacientes que chegavam para colher sangue, mais da metade não tinha recebido nenhuma. Perguntar é normal.
- Nome e doseCada remédio de uso contínuo, como aparece na caixa ou na receita.
- Hora da última doseSobretudo o que você tomou na manhã da coleta.
- Suplementos contamVitaminas, biotina, ferro, fitoterápicos e chás medicinais entram na lista.
- O que foi pausadoDiga se suspendeu ou adiou algum remédio, e por orientação de quem.