Antes de olhar os números
Valores de referência são as faixas que indicam onde costuma cair o resultado de pessoas saudáveis num determinado exame. Esta página reúne as faixas usuais de um adulto para as linhas que um exame de rotina mais traz: hemograma, glicose e hemoglobina glicada, rins e fígado, TSH, ferritina e colesterol LDL. Use-a como apoio para a leitura, não como veredito: a faixa que vale para o seu resultado é a que está impressa ao lado dele, no seu laudo.
No Brasil, isso é uma obrigação. A norma da Anvisa para laboratórios clínicos (RDC nº 978/2025, art. 167) lista o que todo laudo deve conter, no mínimo: o nome do exame e o método, o resultado com a unidade de medida e os valores de referência, com as limitações técnicas e os dados para interpretação. Cada linha do seu laudo traz, portanto, a sua própria referência.
E essa referência muda de um laboratório para outro. A Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC) explica que ela depende do método e dos reagentes, que os fabricantes definem as faixas com populações de outras regiões do mundo, e que por isso cada laboratório deve validá-las na população que atende.
As diferenças não são detalhe de arredondamento. Uma revisão de 2025 no Journal of the American Board of Family Medicine lembra que só três exames comuns são harmonizados entre métodos (colesterol, creatinina e hemoglobina glicada) e que a hemoglobina medida num aparelho de gasometria pode sair de 0,5 a 1,0 g/dL mais alta do que no laboratório central.
Como o laboratório define os valores de referência
Para definir uma faixa, o laboratório mede pelo menos 120 pessoas saudáveis do mesmo grupo de idade e sexo, com o mesmo método, e fica com o intervalo onde caem 95% dos resultados. Cinco pessoas saudáveis em cada cem ficam, portanto, fora da faixa em cada exame. Elas não estão doentes: apenas estão nas pontas.
Isso tem uma consequência que quase ninguém conta. Num exame com 20 dosagens, a revisão de 2025 calcula que cerca de duas pessoas saudáveis em cada três terão pelo menos um resultado marcado como alto ou baixo. Encontrar um valor em negrito num laudo longo está mais perto da regra do que da exceção, e quanto mais dosagens, mais marcações.
O Brasil tem até os seus próprios números. Com amostras de sangue de 8.952 adultos da Pesquisa Nacional de Saúde, pesquisadores calcularam faixas para a população adulta brasileira, por sexo e faixa de idade. Os limites encontrados não coincidem exatamente com os que muitos laboratórios imprimem, o que mostra bem que um valor de referência é uma escolha estatística, não uma fronteira entre saúde e doença.
A etiqueta pesa: segundo a mesma revisão americana, os exames laboratoriais orientam cerca de 70% das decisões clínicas, e pequenas variações marcadas como altas ou baixas preocupam os pacientes sem motivo. A marcação só diz que o valor está na borda do que o laboratório viu em pessoas saudáveis.
Hemograma: faixas habituais
Valores de adulto. Nos laudos brasileiros, leucócitos e plaquetas costumam vir por milímetro cúbico (/mm³): 250.000/mm³ de plaquetas é o mesmo número que 250 ×10⁹/L. Já g/dL e g/L diferem por um fator de dez, então 13,5 g/dL e 135 g/L descrevem a mesma hemoglobina.
A hemoglobina é onde o sexo mais pesa. Uma análise de 2024 com pessoas saudáveis de oito países, feita para orientar a Organização Mundial da Saúde, situou o limite inferior em cerca de 12,0 g/dL para mulheres não grávidas e 13,5 g/dL para homens. Na Pesquisa Nacional de Saúde, a faixa estimada para adultos brasileiros foi de 13,0 a 16,9 g/dL nos homens e de 11,5 a 14,9 g/dL nas mulheres. É exatamente o tipo de diferença de meio ponto que faz do seu laudo a referência.
Leia as linhas do hemograma completo em grupo, não uma a uma: a hemoglobina com o VCM (o tamanho das hemácias) e com a ferritina; os leucócitos com a contagem por tipo; as plaquetas com o resto. Uma única linha logo fora da faixa não é a mesma situação de várias linhas se movendo juntas, e essa diferença é uma boa pergunta para o seu médico.
Glicose, rins, fígado e tireoide
Quando uma meta substitui a faixa, como no colesterol LDL, o número depende do seu risco cardiovascular e é definido pelo médico, não pelo laboratório. O Brasil tem aqui uma particularidade: a Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025 pede que os laudos de todo o país tragam os valores do perfil lipídico por categoria de risco, e que informem se a coleta foi feita com ou sem jejum. Por isso o seu laudo pode mostrar cinco números diferentes para o mesmo LDL.
A creatinina é produzida pelo músculo e eliminada pelos rins, então toda fórmula que a transforma em taxa de filtração glomerular estimada (TFG) usa idade e sexo como substitutos da massa muscular: a TFG é um cálculo, não uma medida. O consenso de 2024 da Sociedade Brasileira de Nefrologia e da SBPC/ML recomenda a equação CKD-EPI, sem a antiga correção por raça. Nos adultos da Pesquisa Nacional de Saúde, a creatinina foi de 0,7 a 1,2 mg/dL nos homens e de 0,5 a 1,0 mg/dL nas mulheres.
A TGP (ALT) é a linha cujos limites impressos mais variam. Uma diretriz americana de gastroenterologia situa uma TGP realmente saudável entre 29 e 33 U/L nos homens e entre 19 e 25 U/L nas mulheres, abaixo do limite que muitos laboratórios imprimem. A mesma TGP pode, assim, sair marcada num laboratório e não em outro.
A ferritina tem uma armadilha. Ela reflete o estoque de ferro, mas também sobe com a inflamação, então uma ferritina tranquilizadora durante uma infecção ou uma doença inflamatória pode esconder um ferro baixo. Um consenso suíço de especialistas considera 30 ng/mL um limite confiável para falta de ferro apenas em pessoas sem inflamação.
| Exame | Faixa habitual | Observações |
|---|---|---|
| Glicemia de jejum | 70 – 99 mg/dL | Em jejum. De 100 a 125 mg/dL: pré-diabetes (SBD). |
| Hemoglobina glicada (HbA1c) | < 5,7% | Média de cerca de três meses. Não exige jejum. |
| Creatinina | 0,7 – 1,2 mg/dL homens · 0,5 – 1,0 mulheres | Faixas da Pesquisa Nacional de Saúde. Depende da massa muscular; leia com a TFG. |
| Taxa de filtração glomerular (TFG) | > 90 mL/min/1,73 m² | Estimativa calculada por fórmula, não uma medida. |
| TGP (ALT) | 10 – 45 U/L | Leia com a TGO (AST) e a GGT, nunca sozinha. |
| TSH | 0,4 – 4,0 µUI/mL | Segue um ritmo diário. Prefira a coleta pela manhã. |
| Ferritina | 30 – 400 ng/mL homens · 15 – 200 mulheres | Sobe com a inflamação, o que pode mascarar uma falta de ferro. |
| Triglicérides | < 150 mg/dL em jejum · < 175 sem jejum | O laudo deve dizer se houve jejum (Diretriz Brasileira 2025). |
| Colesterol LDL | meta, não faixa | < 115 mg/dL no risco baixo; metas menores nas categorias acima. |
Valores de referência, pontos de corte e metas
Nem todo número de uma tabela como esta é um valor de referência, e confundi-los causa muita preocupação à toa. Quatro tipos de número aparecem nos laudos, e cada um responde a uma pergunta diferente.
A faixa de pré-diabetes é um ponto de corte do segundo tipo, definido pela Sociedade Brasileira de Diabetes. A hemoglobina glicada não exige jejum, e o perfil lipídico de rotina também não: a diretriz brasileira de 2025 aceita a coleta sem jejum na avaliação inicial e só recomenda nova coleta com 12 horas de jejum se os triglicérides passarem de 440 mg/dL.
- 100–125
- Glicemia de jejum, em mg/dL, que a Sociedade Brasileira de Diabetes classifica como pré-diabetes.[10]
- 5,7–6,4%
- Hemoglobina glicada classificada como pré-diabetes, medida sem necessidade de jejum.[10]
- < 40
- Meta de LDL, em mg/dL, para quem tem risco cardiovascular extremo na diretriz brasileira de 2025.[11]
- Valor de referênciaOnde cai a maioria das pessoas saudáveis com o método daquele laboratório. Ficar logo fora é comum em pessoas saudáveis.
- Ponto de corte diagnósticoUm limite acordado por sociedades médicas. Para a SBD, glicemia de jejum de 126 mg/dL ou mais, ou hemoglobina glicada de 6,5% ou mais, indicam diabetes.
- Meta de tratamentoUm objetivo ligado ao seu risco. A Diretriz Brasileira de Dislipidemias fixa o LDL abaixo de 115 mg/dL no risco baixo, e mais baixo a cada degrau.
- Valor críticoUm resultado tão distante que exige decisão imediata. A RDC nº 978/2025 (art. 154) obriga o laboratório a definir esses limites e o fluxo para avisar o profissional responsável ou o paciente.
O que desloca um valor de referência
Sexo e idade mudam várias linhas de vez. Os limites de hemoglobina são parecidos em meninos e meninas até a adolescência e depois se separam; a gravidez os baixa de novo: para o Ministério da Saúde, a gestante tem anemia com hemoglobina abaixo de 11 g/dL. Crianças têm valores próprios para muitas linhas, então o laudo de uma criança nunca deve ser lido com uma tabela de adulto como esta. Na Pesquisa Nacional de Saúde, os valores médios também foram mais altos a partir dos 60 anos para vários exames.
Duas outras mudanças não aparecem no laudo. A primeira é o método: trocar de laboratório no meio de um acompanhamento pode mover um resultado sem que nada tenha mudado em você. A segunda é o relógio. O TSH é mais alto no início da manhã, e num grande banco de dados hospitalar ele chegou a ficar cerca de um quarto mais baixo no começo da tarde do que às 7 horas, por isso coletas pela manhã são mais fáceis de comparar.
A terceira é o preparo. As recomendações europeias e latino-americanas para coleta de sangue venoso tratam o preparo do paciente, jejum incluído, como parte de um resultado válido. Se um valor marcado pode ter sido movido por uma refeição, pelo horário ou por uma troca de laboratório, é razoável perguntar se vale repeti-lo nas mesmas condições.
Valores “ideais” e sinais de alerta
Tabelas que prometem valores ideais respondem a outra pergunta. Um valor de referência descreve pessoas saudáveis, enquanto alguns limites são escolhidos com uma finalidade e podem mudar para o mesmo exame. A revisão de medicina de família dá o exemplo do ácido fólico: um nível previne a anemia, e outro, mais alto, é necessário para normalizar a homocisteína. Nenhum deles é a faixa do seu laboratório, e nenhum deveria guiar um tratamento sem o seu médico.
Os verdadeiros sinais de alerta dependem menos de um negrito do que de um padrão: um valor muito fora da faixa, várias linhas relacionadas se movendo no mesmo sentido, uma mudança clara em relação ao seu resultado anterior, ou um resultado alterado junto com sintomas. Converse logo com o seu médico nessas situações. E os valores perigosos não dependem de você: o laboratório é obrigado a ter um fluxo para comunicar o profissional responsável ou o próprio paciente quando há necessidade de decisão imediata.
Um exame mais longo não é mais seguro. Uma revisão Cochrane de check-ups gerais em 251.891 adultos encontrou pouco ou nenhum efeito sobre a mortalidade, enquanto cada linha a mais traz mais uma chance de uma marcação a explicar.
O que o laudo poderia dizer
Um valor, uma faixa e uma marcação deixam para você a parte mais difícil: decidir se aquilo importa. A revisão de medicina de família defende que os resultados digam isso em palavras simples: sem motivo de preocupação imediata, para conversar na próxima consulta, ou para procurar o médico assim que possível.
O formato também ajuda. Uma revisão sistemática de 2024 com 18 estudos mostrou que exibir o resultado como uma barra diante da sua faixa melhora a compreensão e leva as pessoas a pesquisar menos na internet e a procurar menos o médico do que os números com a faixa. Quase nenhum laudo oferece isso, então as perguntas úteis ficam com você.
Leve quatro delas para a consulta: quanto o valor está fora, para que lado, quais linhas relacionadas concordam com ele e como ele se compara com o seu último resultado. Elas transformam uma tabela geral como esta numa conversa sobre você.