O que o lipidograma mede

O lipidograma, ou perfil lipídico, mede as gorduras do sangue: o colesterol total, o colesterol HDL, o colesterol LDL e os triglicerídeos. No pedido médico ele aparece muitas vezes como “colesterol total e frações” mais “triglicerídeos”. Muitos laudos brasileiros acrescentam o VLDL e o colesterol não-HDL, que é simplesmente o colesterol total menos o HDL: um cálculo feito com o mesmo tubo, não um exame a mais.

Qual a diferença entre lipidograma e colesterol total? O colesterol total é uma linha só, a soma de todas as frações. O lipidograma é o conjunto, e é ele que permite saber se um total alto vem do LDL, que se acumula nas artérias, ou do HDL. O LDL, aliás, quase nunca é medido diretamente: é calculado, e a diretriz brasileira de 2025 recomenda a equação de Martin/Hopkins para todos.

Quatro ou cinco linhas, e nem todas se leem do mesmo jeito. Os triglicerídeos e o HDL se comportam como resultados de laboratório comuns. O LDL não: ele é comparado a uma meta que depende de você, e não do laboratório.

A linha que é uma meta, não uma faixa

O colesterol total, o HDL e os triglicerídeos são lidos contra valores desejáveis. O LDL é lido contra uma meta, e a meta depende do seu risco cardiovascular. Pela diretriz brasileira de 2025, esse risco é estimado, nos adultos de 30 a 79 anos sem doença cardiovascular conhecida, com o escore PREVENT, que combina idade, sexo, pressão, diabetes, tabagismo, colesterol, peso e função dos rins.

A diretriz pede que os laboratórios imprimam no laudo a tabela abaixo, a mesma em todo o país. É por isso que o seu LDL aparece ao lado de cinco números, e não de uma faixa só.

< 115 mg/dL
Meta de LDL para quem tem baixo risco cardiovascular, na diretriz de 2025[1]
< 40 mg/dL
Meta da nova categoria de risco extremo[1]
Categoria de riscoMeta de LDL-cMeta de não-HDL-c
Baixo< 115 mg/dL< 145 mg/dL
Intermediário< 100 mg/dL< 130 mg/dL
Alto< 70 mg/dL< 100 mg/dL
Muito alto< 50 mg/dL< 80 mg/dL
Extremo< 40 mg/dL< 70 mg/dL

Precisa de jejum para o lipidograma?

Em geral, não. Desde 2016, o consenso brasileiro assinado pelas sociedades de patologia clínica, cardiologia, diabetes, endocrinologia e análises clínicas aceita o lipidograma sem jejum, e a diretriz de 2025 manteve a regra. O laboratório deve informar no laudo se você estava sem jejum ou com jejum de 12 horas, e imprimir os valores de triglicerídeos para as duas situações.

O motivo é o tamanho da diferença. Depois de uma refeição comum, as maiores variações médias são de cerca de +26 mg/dL nos triglicerídeos e −8 mg/dL no colesterol total e no LDL, enquanto o HDL e a lipoproteína(a) não mudam. Os valores com e sem jejum preveem o risco cardiovascular igualmente bem, e como passamos a maior parte do dia depois de comer, uma amostra sem jejum retrata a vida real pelo menos tão bem quanto uma amostra em jejum.

O jejum volta em uma situação: quando os triglicerídeos sem jejum passam de 440 mg/dL. Aí a diretriz recomenda uma nova coleta com 12 horas de jejum. Se o seu médico pediu jejum desde o início, ou se o mesmo pedido tem outro exame que exige jejum, vale a orientação dele.

Como as linhas se relacionam

Os triglicerídeos são a linha mais sensível ao que você fez ontem: uma refeição os eleva, e a bebida alcoólica na noite anterior também. Um triglicerídeo alto isolado, numa amostra sem jejum, raramente é o achado que parece.

O HDL muda devagar e não se altera com uma refeição. É também uma linha em que o cigarro aparece: num estudo que dividiu as pessoas pela intensidade do tabagismo, os fumantes tinham colesterol total, triglicerídeos e LDL mais altos e HDL mais baixo, com o padrão mais marcado nos que fumavam mais.

O colesterol não-HDL reúne todo o colesterol transportado pelas partículas que podem se acumular na parede das artérias. A diretriz de 2025 o trata como meta tão importante quanto o LDL, sobretudo quando os triglicerídeos estão altos.

Por que os valores mudam de um laudo para outro

Os números impressos ao lado do seu resultado dependem da tabela que o laboratório adota, e essa tabela mudou. O consenso de 2016 fixava a meta de LDL do baixo risco em menos de 130 mg/dL; a diretriz de 2025 a baixou para menos de 115 e acrescentou a categoria de risco extremo. Um laudo de alguns anos atrás e um de agora podem, portanto, marcar de forma diferente o mesmo LDL, e os valores de referência de cada laudo só valem para ele.

As faixas também não são as mesmas para todo mundo. Na Pesquisa Nacional de Saúde, que estabeleceu valores de referência para a população adulta brasileira, as mulheres tinham colesterol total, LDL e HDL mais altos que os homens, os valores subiam a partir dos 60 anos, e os limites do colesterol e das frações eram ligeiramente mais baixos nas pessoas não brancas.

Os valores desejáveis descrevem um nível bom para a população, não um diagnóstico. Um colesterol total acima de 310 mg/dL, observa o consenso brasileiro, torna provável uma hipercolesterolemia familiar, de origem genética: é um dos motivos pelos quais a história da sua família entra na conversa.

Quando se preocupar com o lipidograma

Alguns números pesam sozinhos, qualquer que seja o resto do seu risco. São esses que merecem uma conversa direta com o médico, sem esperar a próxima consulta de rotina.

  1. LDL de 190 mg/dL ou maisQuando persistente e sem outra causa, faz suspeitar de hipercolesterolemia familiar; a diretriz recomenda estatina de alta intensidade.
  2. Colesterol total acima de 310 mg/dLO consenso brasileiro considera provável uma hipercolesterolemia familiar, que pede investigação da família.
  3. Triglicerídeos acima de 440 mg/dL sem jejumPedem uma nova coleta com 12 horas de jejum. A partir de 500 mg/dL, de forma persistente apesar das mudanças de hábito, a diretriz indica um fibrato para reduzir o risco de pancreatite.
  4. Lipoproteína(a)Não faz parte do lipidograma comum, mas a diretriz de 2025 recomenda dosá-la uma vez na vida em todos os adultos, porque ela não muda com a alimentação.

O que o lipidograma não diz

Ele não mede o estado das suas artérias. Mede substâncias que, ao longo dos anos, contribuem para esse estado. Um lipidograma isolado é um ponto numa linha que só passa a dizer algo quando você tem vários.

E ele não diz nada sobre o resto do seu risco cardiovascular: pressão, cigarro, diabetes, história familiar e idade pesam de um jeito que nenhuma linha do lipidograma mostra, e é exatamente por isso que a meta de LDL é pessoal.

De quanto em quanto tempo repetir

O caderno de rastreamento do Ministério da Saúde recomenda fortemente o exame do colesterol nos homens a partir dos 35 anos e nas mulheres a partir dos 45 que tenham risco cardiovascular alto, e o recomenda também em adultos mais jovens de alto risco. Para as crianças, a diretriz de 2025 pede um lipidograma em todas entre 9 e 11 anos de idade, e a partir dos 2 anos nas que têm fatores de risco.

Se você está em tratamento ou tem outros fatores de risco, o seu médico vai definir outro ritmo, e fazer os exames no mesmo laboratório facilita a leitura da tendência.