Quais são os exames de sangue para os rins

O exame de sangue para os rins mede a creatinina e a ureia, calcula a partir da creatinina uma taxa de filtração glomerular estimada, a TFG, e muitas vezes inclui os eletrólitos que os rins equilibram: sódio e potássio, às vezes cloro e bicarbonato. A lista exata varia de um laboratório para outro, então confira as linhas impressas no seu laudo.

No Brasil, as diretrizes do Ministério da Saúde para a doença renal crônica no SUS orientam que toda pessoa com risco (diabetes, pressão alta, idade avançada, obesidade, doença do coração ou da circulação, histórico de doença renal na família, tabagismo ou uso de remédios que agridem os rins) dose a creatinina e tenha a TFG estimada, junto com um exame de urina, o EAS. Se nada for encontrado, essa avaliação se repete uma vez por ano.

Essas linhas se leem em conjunto, nunca uma de cada vez. Creatinina e TFG falam da filtração, a ureia é lida diante da creatinina, e os eletrólitos falam do equilíbrio que os rins mantêm.

A creatinina mede seus músculos tanto quanto seus rins

A creatinina é um resíduo do músculo, eliminado pelos rins. A quantidade no seu sangue depende, portanto, de duas coisas: de como os rins a estão eliminando e de quanto músculo a está produzindo.

Essa segunda metade explica resultados que, de outro modo, parecem contraditórios. Um rapaz muito musculoso e uma senhora pequena com a mesma função dos rins não terão a mesma creatinina. As diretrizes internacionais de nefrologia listam os suspeitos habituais: massa muscular muito alta ou muito baixa, musculação e exercício extremo, dietas ricas em proteína e suplementos de creatina, e dietas vegetarianas ou pobres em proteína mudam a creatinina sem nenhuma mudança nos rins.

Até uma única refeição conta. Um prato de carne ou peixe cozidos pode elevar a creatinina em cerca de 0,23 mg/dL, o bastante para baixar a TFG em uns 20 pontos, e esperar ao menos 12 horas depois dessa refeição evita o efeito.

É também por isso que os valores de referência variam por sexo, e por isso uma creatinina no alto da faixa em alguém com pouco músculo merece mais atenção do que o mesmo número em alguém muito musculoso.

A TFG é um cálculo, não uma medida

A taxa de filtração glomerular impressa no seu laudo não foi medida. Ela é calculada a partir da creatinina, da idade e do sexo, com uma fórmula, e carrega a incerteza dessa fórmula. As diretrizes do Ministério da Saúde recomendam as equações MDRD ou CKD-EPI, desaconselham a antiga fórmula de Cockcroft-Gault e preferem a estimativa à coleta de urina de 24 horas, pelo risco de erro na coleta.

Nos Estados Unidos, desde 2021 os especialistas em rins recomendam uma equação sem variável de raça; no Brasil, o grande estudo ELSA-Brasil já calculava a TFG pela CKD-EPI sem correção para raça. O laudo costuma indicar qual equação foi usada, e o valor vem ajustado a um tamanho médio de corpo, e não ao seu. Na prática, a TFG é ótima para acompanhar uma tendência e ruim para ler uma casa decimal. Quando a massa muscular foge do comum, um segundo marcador, a cistatina C, pode confirmar a estimativa.

Dois valores de laboratórios diferentes, ou de equações diferentes, não são diretamente comparáveis. Um degrau na sua curva no momento em que você troca de laboratório pertence ao método, e não aos seus rins.

Qual é a TFG normal para a sua idade?

A TFG cai com a idade, mesmo em quem não tem doença renal. A National Kidney Foundation, entidade americana de nefrologia, dá uma média de cerca de 116 para quem está na casa dos vinte anos e de cerca de 75 a partir dos 70 anos. Uma TFG de 85 aos setenta anos não é a mesma coisa que o mesmo número aos vinte e cinco.

É aqui que os intervalos mais enganam. Cada um deixa de fora cerca de 1 em cada 20 pessoas saudáveis em qualquer exame, e um único limite impresso para todas as idades não reflete essa queda lenta.

116
TFG média entre 20 e 29 anos[5]
75
TFG média a partir dos 70 anos[5]

Um resultado isolado nunca é doença renal crônica

Uma TFG baixa numa única coleta é um achado, não um diagnóstico. A doença renal crônica se define por alterações que duram pelo menos três meses seguidos: em geral uma TFG abaixo de 60 mL/min/1,73 m², ou uma relação albumina/creatinina na urina de 30 mg/g ou mais, ainda presentes na repetição. É a definição das diretrizes internacionais e também a das diretrizes do Ministério da Saúde.

Por isso um valor reduzido costuma ser repetido em vez de tratado na hora, e por isso a urina importa tanto quanto o sangue. Albumina na urina traz uma informação que nenhuma linha do exame de sangue traz.

O contrário também é verdade: a doença renal no começo é comum e silenciosa. No ELSA-Brasil, com mais de 14 mil adultos de 35 a 74 anos, 8,9% tinham doença renal crônica por esses critérios, com frequência maior com a idade, entre pessoas pretas, pardas e indígenas e entre quem tinha menos escolaridade. Se você tem diabetes ou pressão alta, pergunte se a avaliação dos seus rins inclui um exame de urina.

  1. É o primeiro valor baixo?Um valor visto uma vez é repetido; o mesmo valor em várias coletas, com meses de distância, é o que define uma tendência.
  2. Minha urina foi examinada?A relação albumina/creatinina na urina pode mostrar lesão nos rins enquanto a TFG ainda parece normal.

A ureia e o resto do exame

A ureia sobe com a desidratação, com uma dieta rica em proteína e com sangramento no tubo digestivo, e não só com a perda de função dos rins. Ela é lida ao lado da creatinina, e não sozinha, e a relação entre as duas traz uma informação que nenhuma traz por si. Atenção ao ler textos americanos: lá o laudo costuma trazer o BUN, outra forma de expressar a ureia, e os números não são comparáveis com os do seu laudo.

Os eletrólitos do mesmo exame descrevem o equilíbrio que os rins mantêm: sódio, potássio, cloro e bicarbonato. Eles mudam por muitos motivos, inclusive por vários remédios de uso comum, e são lidos em grupo.