A resposta em uma linha

Sim. Água pura é liberada durante todo o jejum, inclusive na manhã da coleta. O Hospital Universitário da USP responde sem rodeios à pergunta “água quebra o jejum?”: não, mas convém tomá-la com moderação.

A recomendação de coleta EFLM-COLABIOCLI, traduzida para o português no Brasil, diz o mesmo: o consumo de água é permitido durante o período de jejum. Isso vale para o jejum de 8 a 12 horas da glicemia e para os exames de rotina que pedem menos tempo.

Por que a água não atrapalha

Água pura não tem açúcar, gordura nem calorias. Não há nada nela que o laboratório meça numa glicemia, num colesterol ou numa creatinina.

Isso foi testado. Num estudo argentino, 20 mulheres colheram sangue em jejum e de novo uma hora depois de beber 300 mL de água. Dezesseis exames de rotina foram comparados, entre eles glicose, colesterol, triglicerídeos, ureia, creatinina e enzimas do fígado. Algumas diferenças apareceram nas estatísticas, mas nenhuma foi grande o bastante para mudar a leitura de um laudo.

O contrário também foi estudado. Em 37 voluntários que passaram 12 horas sem comer e sem beber, o volume de plasma, o hematócrito e a hemoglobina não mudaram em relação aos dias em que beberam normalmente. Ficar sem água não “concentra” o seu sangue a ponto de enganar o hemograma completo. Ou seja: beber água não estraga o exame, e deixar de beber não o melhora. Beba para o seu conforto.

300 mL
de água uma hora antes da coleta não mudaram a leitura de 16 exames de rotina.[4]
12 h
sem água nem comida não alteraram o volume de plasma nem a hemoglobina de 37 voluntários.[5]

O que conta como água, e o que não conta

A regra fala de água pura. Tudo o que tem sabor, açúcar, adoçante, cafeína ou calorias quebra o jejum, mesmo que pareça leve.

  1. LiberadoÁgua da torneira filtrada, mineral ou de garrafa, em temperatura ambiente ou gelada.
  2. Melhor evitarÁgua com gás: não há estudo brasileiro que a libere, e muitos laboratórios só falam em água pura. Na dúvida, prefira a sem gás.
  3. Não conta como águaÁgua saborizada, água de coco, isotônicos e sucos, mesmo sem açúcar.
  4. Também quebra o jejumCafé, chá, chimarrão e tereré, inclusive sem açúcar, por causa da cafeína.

Quanto beber, e até quando

Não existe uma quantidade oficial. O que os hospitais públicos brasileiros pedem é moderação: o HU-USP e o hospital da UFTM liberam a água durante o jejum e lembram que o excesso pode interferir nos exames de urina, caso você também vá entregar uma amostra no mesmo dia.

Na prática, beba como num dia comum: um copo ao acordar, outro no caminho, se tiver sede. Não é preciso tomar um litro de água de uma vez para “facilitar a coleta”, e também não é preciso parar de beber na véspera.

Você pode beber até a hora da coleta. A água não tem um prazo de corte, ao contrário da comida e do café antes do exame.

Vale para todos os exames de sangue?

Para os exames de rotina, sim: glicemia, colesterol, hemograma, função renal, fígado, tireoide. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes define o jejum da glicemia como ausência de calorias por 8 a 12 horas, e água não tem calorias.

Alguns exames especiais têm preparo próprio, definido pelo laboratório: testes de sobrecarga de glicose, alguns hormônios, exames feitos junto com urina. Nesses casos, a folha de preparo do laboratório manda. Se ela não fala de água, pergunte.

Chá, chimarrão e outras dúvidas da manhã

Chá e chimarrão não são água. Mesmo sem açúcar, levam cafeína e outras substâncias que entram no sangue; o café, por exemplo, mudou a resposta de açúcar e de insulina em estudos controlados. Deixe para depois da coleta.

Chiclete também não: mesmo sem açúcar, a recomendação de coleta pede que a goma de mascar não seja usada durante o jejum.

Exercício intenso na manhã da coleta também fica para depois. A recomendação de coleta pede para evitar atividade física acima do habitual nas 24 horas anteriores, e a diretriz brasileira de dislipidemias cita o esforço extenuante na véspera entre o que pode alterar o colesterol e os triglicerídeos.

Remédios e água

Tomar os remédios de uso contínuo com um copo de água não quebra o jejum. O hospital da UFTM orienta avisar o laboratório de todos os medicamentos em uso e só suspender algum por orientação médica.

A exceção que exige conversa prévia com o médico é o diabetes: o consenso brasileiro de lípides lembra que quem usa insulina corre risco de hipoglicemia num jejum prolongado. E, se o pedido traz exames de tireoide, pergunte se a levotiroxina deve ser tomada depois da coleta.

Se quiser saber o que significam os números que vão chegar, os intervalos de referência do laudo são explicados em outra parte do site.