Guia 2 · com o laudo em mãos

Tipos de exame de sangue: o que mede cada grupo do seu laudo

Os principais tipos de exame de sangue vêm em grupos: hemograma, glicemia, lipidograma, ionograma, função renal, função hepática, tireoide e ferro. O que cada um mede, e o que deixa em aberto.

Os números principais

251.891
participantes na revisão Cochrane: os check-ups gerais não reduziram a mortalidade[1]
+20%
mais diagnósticos novos em seis anos entre os convidados, sem evolução melhor[2]
< 175 mg/dL
triglicerídeos desejáveis sem jejum, segundo o consenso brasileiro; em jejum, menos de 150[5]
< 40 mg/dL
meta de LDL da nova categoria de risco extremo na diretriz brasileira de 2025[6]

Um grupo de exames, não uma lista solta

O que chega como trinta linhas numeradas é, na verdade, um punhado de pequenos grupos, e dentro de cada um as linhas se leem umas com as outras. A hemoglobina com o VCM e a ferritina. A TGP (ALT) com a TGO (AST) e a gama-GT. A creatinina com a taxa de filtração e com o quanto você bebeu de água no dia anterior.

Por isso ler um laudo de cima para baixo raramente funciona, e por isso cada página deste guia explica um grupo de exames, e não um marcador isolado.

Por que um valor isolado diz pouco

Um número fora da faixa, lido sozinho, é o caminho mais curto para a conclusão errada. A mesma TGP elevada não quer dizer a mesma coisa depois de uma gripe, de um churrasco de fim de semana ou do início de um remédio novo.

Por isso cada página desta seção parte do grupo: quais linhas o compõem, qual se lê primeiro e quais combinações merecem uma pergunta ao seu médico.

O que os exames de rotina mostram, e o que não mostram

Os exames de sangue de rotina descrevem como alguns grandes sistemas estão funcionando hoje: as células do sangue, o açúcar, os rins, o fígado, a tireoide, as gorduras e o ferro. Não são um rastreamento de câncer, não procuram a maioria das infecções e não incluem vitamina D ou B12 se elas não foram pedidas.

Mais linhas não compram mais proteção. Uma revisão sistemática Cochrane de 17 ensaios randomizados e 251.891 participantes não encontrou efeito dos check-ups gerais oferecidos a adultos sobre a mortalidade total, por câncer ou cardiovascular. Num desses ensaios, quem foi convidado para o check-up recebeu 20% mais diagnósticos novos em seis anos, sem que a evolução mudasse. O próprio Ministério da Saúde pede aos profissionais da atenção primária que desfaçam, com paciência, a ideia de que “quanto mais exames, melhor”.

Algumas linhas são frágeis por motivos técnicos, não médicos. O potássio é o caso clássico: hemácias danificadas na coleta liberam potássio na amostra e elevam o resultado, e por isso os laboratórios medem o grau de hemólise e recusam amostras acima de um limite.

Quatro leituras que mudaram há pouco tempo

Quatro linhas se leem hoje de outro jeito do que há alguns anos, e isso importa sempre que você compara um laudo novo com um antigo.

  1. Jejum para o colesterolDesde o consenso brasileiro de 2016, o lipidograma pode ser colhido sem jejum, e o laudo informa se você estava ou não em jejum. Depois de uma refeição comum, os triglicerídeos mudam pouco e o HDL nada.
  2. Metas de LDLA diretriz brasileira de 2025 baixou a meta de LDL para quem tem baixo risco (menos de 115 mg/dL) e criou uma categoria de risco extremo, com meta abaixo de 40 mg/dL. Um laudo antigo pode trazer outras metas impressas.
  3. RinsEm 2021, nefrologistas norte-americanos recomendaram uma equação da creatinina sem a variável raça: uma taxa de filtração antiga e uma recente podem não ter sido calculadas do mesmo jeito.
  4. TireoideDiante de um TSH alto com T4 livre normal, uma revisão de 2023 não encontra prova de que o tratamento com hormônio ajude; decidem a idade, os sintomas e o nível do TSH.

Por onde começar

Se o seu laudo é uma folha comprida, comece pelo guia do exame de sangue completo, que explica como os grupos se encaixam e o que um check-up pode e não pode dizer. Depois vá ao grupo que tem as suas linhas marcadas: o hemograma, o lipidograma, com o colesterol, o ionograma, a função hepática, a função renal, a tireoide ou o perfil de ferro.

Os artigos deste guia

GuiaExame de sangue completo: quais exames entram e o que eles mostramNão existe um “exame de sangue completo” oficial. O que você tem nas mãos é um conjunto de pequenos grupos de exames, e cada grupo se lê em bloco, não linha por linha.ArtigoHemograma completo: o que é, o que detecta e quando preocupaOs neutrófilos são a linha de frente, como os bombeiros que chegam antes de todo mundo. As plaquetas são os pequenos remendos do sangue, como o remendo que fecha o furo de um pneu. O hemograma conta essas famílias, e o que ele tem de útil está na forma como as linhas se leem juntas.ArtigoIonograma (exame de eletrólitos): o que mede e para que serveO sódio não diz quanto sal você come. Diz quanta água você está carregando em relação ao sal que já tem, e por isso um sódio baixo quase sempre é uma questão de água.ArtigoLipidograma: o que mede, jejum e valores de referênciaQuatro ou cinco linhas, e uma delas nem é uma faixa de referência: é uma meta. Ler um lipidograma é saber qual é qual.ArtigoHepatograma: quais exames compõem e o que TGO, TGP e gama-GT indicamA maior parte do hepatograma não mede o quanto o fígado trabalha bem. Ela mede enzimas que escapam quando as células do fígado ficam irritadas, e isso é outra pergunta.ArtigoExames da tireoide: o que TSH, T4 livre e T3 mostram e o que preocupaO TSH não é um hormônio da tireoide, e ele anda no sentido contrário ao da glândula. Entendido isso, quase todo o resto do exame se lê sozinho.ArtigoExame de sangue para os rins: quais são e quando a creatinina preocupaA creatinina é um resíduo, a filtração que o laudo mostra é uma estimativa calculada a partir dela, e nenhuma das duas é um diagnóstico num único dia.ArtigoCinética do ferro: que exames entram e como ler ferritina e saturaçãoA ferritina é a sua reserva de ferro, a saturação da transferrina mostra o que está circulando, e o limite que separa a falta de ferro do normal é, de fato, discutido.

Os seus próprios resultados

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Fontes

Diretrizes clínicas, documentos de consenso e estudos revisados por pares. Cada número desta página vem de uma destas fontes. Pré-publicações não são citadas.

  1. Revisão sistemática

    General health checks in adults for reducing morbidity and mortality from disease

    Cochrane Database of Systematic Reviews · 2019doi:10.1002/14651858.CD009009.pub3

  2. Revisão sistemática

    General health checks in adults for reducing morbidity and mortality from disease: Cochrane systematic review and meta-analysis

    BMJ · 2012doi:10.1136/bmj.e7191

  3. Manual técnico oficial

    Rastreamento. Cadernos de Atenção Primária, n. 29

    Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica · 2010

  4. Estudo de verificação

    Effects of the hemolytic index on the test results of a dry chemistry analyzer and a verification of the hemolytic interference threshold

    Annals of Palliative Medicine · 2022doi:10.21037/apm-22-292

  5. Consenso de sociedades brasileiras

    Consenso Brasileiro para a Normatização da Determinação Laboratorial do Perfil Lipídico

    SBPC/ML, SBC (Departamento de Aterosclerose), SBD, SBEM e SBAC · 2016

  6. Diretriz

    Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose - 2025

    Arquivos Brasileiros de Cardiologia (Sociedade Brasileira de Cardiologia) · 2025doi:10.36660/abc.20250640

  7. Recomendação

    A Unifying Approach for GFR Estimation: Recommendations of the NKF-ASN Task Force on Reassessing the Inclusion of Race in Diagnosing Kidney Disease

    American Journal of Kidney Diseases · 2021doi:10.1053/j.ajkd.2021.08.003

  8. Revisão

    Subclinical hypothyroidism, outcomes and management guidelines: a narrative review and update of recent literature

    Current Medical Research and Opinion · 2023doi:10.1080/03007995.2023.2165811