O que é o ionograma

O ionograma mede os sais dissolvidos no sangue, os eletrólitos: sobretudo o sódio, o potássio e o cloreto, às vezes também o bicarbonato. Ele serve para verificar o equilíbrio entre a água e os sais, que os rins ajustam o tempo todo; por isso o que você comeu quase não mexe nesses números.

As linhas não são vereditos independentes e só significam algo lidas em grupo: o sódio com o cloreto, que costuma acompanhá-lo; o potássio com as condições da coleta; e o bloco inteiro com a creatinina.

  1. SódioDiz sobretudo quanta água você carrega em relação ao sal. Baixo, quase sempre é excesso de água, não falta de sal.
  2. PotássioConta muito para o coração e para os músculos. Também é a linha que a coleta altera com mais facilidade.
  3. CloretoCostuma acompanhar o sódio e ajuda a regular a água do corpo, por isso se lê junto com ele.
  4. BicarbonatoReflete o equilíbrio entre ácidos e bases do sangue. Nem sempre faz parte do ionograma de rotina.

Como ele aparece no seu laudo

É possível que o seu laudo não diga “ionograma”. No Brasil, o pedido médico costuma listar “sódio” e “potássio” como exames separados, às vezes com o cloreto, e o laudo segue a mesma ordem. Cálcio e magnésio também são eletrólitos, mas entram só quando o médico os pede.

Quase nunca vem sozinho: divide o tubo com a glicose, a ureia, a creatinina e, muitas vezes, o colesterol e as enzimas do fígado. Também não é o hemograma: o hemograma conta células, o ionograma mede substâncias dissolvidas na parte líquida do sangue.

As unidades mudam de um laboratório para outro, mas aqui sem armadilha: para o sódio, o potássio e o cloreto, o número em mEq/L e em mmol/L é o mesmo. Um sódio de 140 mEq/L é exatamente um sódio de 140 mmol/L.

Para que serve o ionograma?

Ele é pedido em exames de rotina, para investigar inchaço, vômitos, diarreia, fraqueza, cãibras, confusão ou um ritmo do coração irregular, e para acompanhar a hipertensão, as doenças dos rins, do coração ou do fígado e os remédios que mexem com os sais do corpo.

Desequilíbrios leves costumam não dar sintoma nenhum e aparecem só no exame; desequilíbrios importantes podem causar fraqueza, cãibras, confusão ou alterações do ritmo cardíaco.

Precisa de jejum para o ionograma?

Para o sódio e o potássio, não: os laboratórios brasileiros informam que esses exames não exigem jejum nem preparo específico. O que muda a resposta é a glicose, que quase sempre está no mesmo pedido.

A glicose, essa sim, pede ao menos oito horas sem comer, só com água. É nessas condições que a Sociedade Brasileira de Diabetes lê de 100 a 125 mg/dL como pré-diabetes e 126 mg/dL ou mais, confirmada num segundo exame, como diabetes; uma glicose colhida depois do café da manhã não se compara com esses limites. Siga a orientação do seu pedido.

O potássio, a linha que mais engana

Quase todo o potássio do corpo fica dentro das células, inclusive das hemácias. Se algumas delas se rompem entre o seu braço e o aparelho, o potássio do tubo sobe sem que nada tenha acontecido com você. Um estudo de verificação com 26 exames de bioquímica confirmou que essa hemólise eleva o potássio, a TGO (AST), a LDH, a bilirrubina e o ferro, e baixa a glicose e a TGP (ALT).

As causas são banais: um garrote deixado tempo demais, a mão abrindo e fechando durante a coleta, uma agulha fina, um tubo sacudido, uma demora até a amostra ser centrifugada. A recomendação conjunta da federação europeia e da confederação latino-americana de laboratório pede que o garrote seja solto assim que o sangue começa a correr e que a mão fique parada.

Por isso um potássio um pouco alto num exame no resto normal tem uma primeira explicação sem graça, e o passo habitual é repetir a coleta, não começar um tratamento.

26
Exames de bioquímica testados contra a hemólise no estudo de verificação.[6]
17
Exames cujo resultado mudava com a hemólise, o potássio entre eles.[6]

Sódio baixo muitas vezes é remédio

Fala-se em hiponatremia quando o sódio fica abaixo de 135 mmol/L, e segundo a diretriz europeia ela é o distúrbio de eletrólitos mais frequente. Quanto ele cai importa muito: um sódio de 133 e um de 122 recebem a mesma marca e não contam a mesma história.

Em quem trata a pressão alta, a explicação costuma estar na própria receita. Numa coorte de 2.613 adultos que começavam o tratamento da hipertensão, cerca de três em cada dez dos que continuaram com um diurético tiazídico, como a hidroclorotiazida, chegaram a um sódio de 130 mmol/L ou menos.

Isso não é motivo para parar o comprimido, e sim para ler o número ao lado da lista dos seus remédios e deixar a decisão com o médico que receitou. Com o potássio acontece o mesmo: alguns remédios de pressão o elevam e alguns diuréticos o baixam.

Ionograma e rins: a filtração é uma estimativa

Como são os rins que regulam os sais, o ionograma costuma vir com a creatinina e, logo abaixo dela, com uma taxa de filtração glomerular estimada, em mL/min/1,73 m². Essa taxa nunca foi medida: é calculada com a creatinina, a idade e o sexo, e carrega a incerteza de uma fórmula.

A fórmula também mudou. Em 2021, uma força-tarefa das sociedades de nefrologia dos Estados Unidos recomendou a equação CKD-EPI sem a variável raça e o uso mais frequente da cistatina C para confirmar os casos duvidosos. Por isso a taxa de um laudo antigo pode não ser comparável com a de um recente, e um primeiro valor baixo se repete antes de qualquer conclusão.

Quais são os valores de referência do ionograma?

Os que vêm impressos no seu laudo, ao lado do resultado, porque cada laboratório define ou valida os seus. Como exemplo, uma grande rede brasileira de hospitais usa 135 a 145 mEq/L para o sódio e 3,5 a 5,1 mEq/L para o potássio em adultos.

Cada faixa deixa de fora cerca de 1 em cada 20 pessoas saudáveis, então alguma marca é o esperado. Uma linha isolada um pouco fora se repete; o que se investiga é um valor que continua alterado numa segunda amostra bem colhida, ou várias linhas mudando juntas. Um sódio ou um potássio muito longe da faixa, ou um telefonema do laboratório, justificam procurar atendimento no mesmo dia.