O que mede o perfil lipídico
O perfil lipídico mede quatro coisas: o colesterol total, o colesterol LDL, o colesterol HDL e os triglicéridos. Muitos boletins acrescentam o colesterol não-HDL, que é apenas o colesterol total menos o HDL: um cálculo feito com o mesmo tubo, não uma análise a mais.
Em muitos laboratórios, o próprio LDL também é calculado e não medido. Um estudo português comparou duas fórmulas de cálculo, a de Friedewald e a de Martin-Hopkins, com o LDL medido diretamente em 1 689 pessoas: ambas acompanham bem a medição, a segunda um pouco melhor nos valores baixos, na diabetes e com triglicéridos altos.
Quatro ou cinco linhas, e não se leem todas da mesma maneira. Os triglicéridos e o HDL comportam-se como resultados de laboratório comuns. O LDL, normalmente, não: é avaliado contra uma meta que depende de si, e não do laboratório.
A linha que é uma meta, não um intervalo
O colesterol total, o HDL e os triglicéridos são comparados com intervalos. O colesterol LDL é comparado com uma meta, e a meta depende do risco cardiovascular. Na Europa, esse risco é estimado nos adultos sem doença conhecida com a tabela SCORE2, que combina a idade, o sexo, o tabaco, a tensão arterial e o colesterol não-HDL.
As orientações europeias de 2019 fixam então a meta: menos de 116 mg/dL para um risco baixo, menos de 100 para um risco moderado, menos de 70 para um risco alto e menos de 55 para um risco muito alto. É por isso que duas pessoas podem ter o mesmo LDL, uma com asterisco e outra sem, e os dois boletins estarem certos. Quem já teve um enfarte e quem não tem nenhum fator de risco são medidos contra objetivos diferentes, fixados por um médico e não por um analisador.
Se o seu boletim imprime um intervalo para o LDL, leia-o como o valor por defeito do laboratório, não como a sua meta. A Fundação Portuguesa de Cardiologia, por exemplo, dá como adequado um LDL abaixo de 115 mg/dL na população em geral, e abaixo de 100 mg/dL em quem tem doença cardiovascular, diabetes ou insuficiência renal. O número que se aplica a si vem da consulta, não da folha.
É preciso jejum para o perfil lipídico?
Na maior parte dos casos, não. Desde 2016, a European Atherosclerosis Society e a federação europeia de química clínica (EFLM) recomendam o perfil lipídico sem jejum como regra, e as orientações europeias de 2019 aceitam as duas formas.
O raciocínio está no tamanho da diferença. Depois de uma refeição normal, as maiores variações médias são de cerca de +26 mg/dL nos triglicéridos e de −8 mg/dL no colesterol total e no LDL, enquanto o HDL e a lipoproteína(a) não mexem. Os valores com e sem jejum preveem a doença cardiovascular da mesma forma, e como a maior parte do dia se passa depois de uma refeição, e não antes do pequeno-almoço, uma amostra sem jejum retrata a vida real pelo menos tão bem.
Em Portugal, muitos laboratórios continuam a pedir 12 horas de jejum para as análises de rotina, e é essa instrução que vale para a sua colheita. O jejum volta a ser considerado numa situação precisa: quando os triglicéridos sem jejum ultrapassam 440 mg/dL.
Como as linhas se relacionam
Os triglicéridos são a linha mais afetada pelo que se fez na véspera: uma refeição fá-los subir, e o álcool na noite anterior também. Um triglicérido alto isolado numa amostra sem jejum raramente é o achado que parece.
O HDL mexe devagar e não é perturbado por uma refeição. É também uma linha onde o tabaco se vê: num estudo que agrupou as pessoas pela intensidade do tabagismo, os fumadores tinham colesterol total, triglicéridos e LDL mais altos e HDL mais baixo, e os grandes fumadores o padrão mais marcado.
O colesterol não-HDL, impresso em muitos boletins, reúne todo o colesterol transportado pelas partículas que se podem acumular na parede das artérias. O consenso europeu sugere assinalar um valor sem jejum de 150 mg/dL ou mais.
Porque é que os asteriscos mudam de boletim para boletim
O sinal ao lado de uma linha do perfil lipídico depende do limiar que o laboratório escolheu, não de um normal universal. O consenso europeu, por exemplo, sugere assinalar as amostras sem jejum a partir de 175 mg/dL de triglicéridos, 190 de colesterol total e 115 de LDL, e abaixo de 40 de HDL, com os triglicéridos em jejum assinalados a partir de 150. Outros laboratórios imprimem outros valores, e o mesmo resultado pode ter asterisco num boletim e não ter noutro.
Estes limiares descrevem um nível desejável numa população, não um diagnóstico. O mesmo consenso lembra que um LDL acima de 190 mg/dL pode ser o sinal de uma forma hereditária de colesterol alto, a hipercolesterolemia familiar, e é uma das razões pelas quais a história da família entra na conversa.
O colesterol a 230 é alto? Os números que pesam sozinhos
Um colesterol total de 230 mg/dL está acima dos 190 mg/dL que a Fundação Portuguesa de Cardiologia indica como adequados, mas não diz, sozinho, se há tratamento a fazer: decidem o LDL e o risco global. Alguns números, porém, pesam por si, seja qual for o resto do risco, e justificam uma conversa direta com o médico em vez de esperar pela próxima consulta de rotina.
- LDL de 190 mg/dL ou maisBasta, sozinho, para classificar a pessoa como de risco alto nas orientações europeias, e faz pensar numa hipercolesterolemia familiar.
- Colesterol total acima de 310 mg/dLTambém classifica, por si só, como risco alto, sem precisar de tabela de risco.
- Triglicéridos acima de 880 mg/dLNeste nível a preocupação passa a ser a pancreatite, e o contacto com o médico deve ser rápido.
- Lp(a) acima de 180 mg/dLNão faz parte do perfil habitual, mas as orientações europeias sugerem medi-la uma vez na vida; acima deste valor, o risco pode equivaler ao de uma hipercolesterolemia familiar.
O que o perfil lipídico não diz
Não mede o estado das artérias. Mede substâncias que, ao longo dos anos, contribuem para esse estado. Um perfil isolado é um ponto numa linha que só ganha sentido quando há vários.
E não diz nada sobre o resto do risco cardiovascular: a tensão arterial, o tabaco, a diabetes, a história familiar e a idade pesam o que nenhuma linha lipídica mostra, e é exatamente por isso que a meta de LDL é pessoal.
Em Portugal, ver uma destas linhas assinalada é muito comum. Num estudo nacional do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, a maioria dos adultos tinha o colesterol total (64,6%) e o LDL (66,9%) acima dos valores recomendados. Noutro estudo, com 16 856 utentes dos cuidados de saúde primários, 47% tinham o colesterol total igual ou acima de 200 mg/dL.
De quanto em quanto tempo repetir
As orientações europeias de 2019 admitem avaliar o risco cardiovascular, perfil lipídico incluído, nos homens a partir dos 40 anos e nas mulheres a partir dos 50 ou depois da menopausa, mesmo sem outros fatores de risco. Se está a ser tratado, ou tem outros fatores de risco, o seu médico fixará outro ritmo, e manter o mesmo laboratório torna a evolução mais fácil de ler.