A resposta curta

Pergunte ao laboratório qual é a regra dele. Em Portugal, as indicações vão de 24 horas sem álcool, na Joaquim Chaves Saúde, a três dias, no laboratório Germano de Sousa, que lembra que uma cerveja ou um copo de vinho na véspera chega para subir os triglicéridos. Se ninguém lhe deu um número, deixe pelo menos um dia inteiro entre a última bebida e a colheita.

Isso cobre os efeitos de curta duração. Não faz nada aos valores que refletem semanas ou meses de consumo: uma GGT elevada costuma precisar de 2 a 3 semanas para voltar ao normal depois de parar de beber, e o tamanho dos glóbulos vermelhos pode levar 2 a 4 meses.

Por isso, o tempo sem álcool antes das análises depende daquilo para que serve a análise. Uma boa preparação torna o resultado legível; não o faz dizer outra coisa.

Dois relógios: a noite passada e os últimos meses

O álcool atua em duas escalas de tempo. No curto prazo, é um dos hábitos que os especialistas de laboratório apontam como capazes de mudar a forma como o corpo lida com uma refeição, ao lado do tabaco e do café. A Associação Portuguesa de Analistas Clínicos destaca os triglicéridos, que o álcool pode fazer subir, e também o colesterol. É por isso que o álcool entra em qualquer conversa sobre análises em jejum.

No longo prazo, o consumo regular desloca marcadores que se mexem devagar. A gama-glutamiltransferase (GGT), uma enzima do fígado, sobe e depois precisa de semanas para estabilizar quando se deixa de beber. O volume globular médio (VGM), o tamanho médio dos glóbulos vermelhos, desloca-se para cima e pode levar meses a regressar.

Uma noite sem beber limpa a lista curta, não a longa. Uma GGT que reflete meses de hábito não se desfaz de um dia para o outro, e uma análise que a mediu não o apanhou em falta.

Quanto tempo esperar, análise a análise

Não existe um número oficial único para todas as análises, e é por isso que a indicação da sua requisição ou do seu laboratório é a que conta. Use estes pontos como ponto de partida para falar com o laboratório ou com o médico, não como regras.

Depois da colheita, nada muda na amostra: a hora do próximo copo já não é uma questão de laboratório.

  1. Análises de rotina, sem jejumPergunte ao laboratório; um dia inteiro sem álcool antes da colheita é um bom ponto de partida.
  2. Colesterol e triglicéridosOs triglicéridos reagem a uma só bebida na véspera; há laboratórios que pedem três dias sem álcool.
  3. Função hepáticaPergunte ao médico se quer o seu estado habitual ou alguns dias sem beber primeiro.
  4. Controlo depois de reduzirA mudança vê-se em semanas: compare com a sua análise anterior.

GGT e VGM não são análises ao álcool

É aqui que quase toda a gente se engana, e o erro vale nos dois sentidos. As enzimas do fígado são úteis para despiste, mas as revisões sobre marcadores do álcool são explícitas: não são específicas do álcool. Uma GGT ou uma ALT elevadas não estabelecem quanto alguém bebe.

O excesso de peso é, por si só, uma causa cada vez mais frequente de enzimas hepáticas elevadas, e a ALT e a GGT também acompanham a resistência à insulina e a síndrome metabólica. O estilo de vida também conta: o aumento de peso, o exercício físico e o café modulam vários destes marcadores.

Um estudo mais recente, à procura de um marcador específico do consumo, concluiu que a GGT e o VGM eram influenciados por vários fatores ao mesmo tempo, incluindo lesões do fígado e as gorduras no sangue, enquanto um marcador especializado, a transferrina deficiente em hidratos de carbono (CDT), acompanhava o consumo independentemente deles.

Por isso, se a sua GGT veio alta, a leitura honesta é que alguma coisa está a fazer o fígado trabalhar mais, e o álcool é um candidato entre vários. É uma pergunta para o seu médico, não um veredicto de um número.

Pode beber álcool antes de análises que não pedem jejum?

O prazo do jejum não se aplica, mas o álcool também não é neutro. Se a requisição incluir a glicose ou os triglicéridos, que reagem ao que se comeu e bebeu na véspera, uma noite bem regada é exatamente o tipo de coisa que baralha o quadro.

Seja qual for a análise, diga o que bebeu e quando. Não custa nada e ajuda quem lê o resultado a distinguir um efeito passageiro de um padrão. Não é uma questão rara em Portugal: segundo o Inquérito Nacional de Saúde de 2019, 1,8 milhões de pessoas bebiam álcool todos os dias.

Porque é que um resultado «limpo» pode sair pela culatra

Há quem pare alguns dias para que a análise pareça melhor. Raramente resulta como se espera. A GGT precisa de 2 a 3 semanas para descer e o tamanho dos glóbulos vermelhos de meses, por isso alguns dias sem beber deixam os marcadores lentos mais ou menos onde estavam. A CDT, por seu lado, só sobe com um consumo elevado e mantido, à volta de 50 a 80 gramas de álcool por dia durante várias semanas.

E, sobretudo, não é um objetivo útil. Se a análise foi pedida porque o médico está a vigiar o fígado, uma amostra artificialmente arrumada responde a uma pergunta que ninguém fez. Dizer com franqueza quanto bebe é o que dá sentido ao resultado.

Se está a reduzir

Se a análise serve para acompanhar uma mudança no consumo, a comparação útil não é com o intervalo de referência, mas com a sua própria análise anterior. Uma GGT a descer de forma regular nas semanas seguintes diz mais do que qualquer valor isolado comparado com um intervalo da população.

Pergunte ao médico quando é que uma nova análise mostraria melhor a mudança. Como o VGM se mexe ao longo de meses, uma análise cedo demais pode fazer um progresso real parecer nenhum.

As recomendações europeias sobre a colheita de sangue tratam a preparação como parte da qualidade da amostra, e a franqueza sobre o álcool faz parte dessa preparação: diga ao laboratório o que se aplica a si.