Que análises ao sangue entram num check-up geral
Um check-up geral não é uma análise, mas um conjunto de análises mais pequenas. No centro de saúde, o médico de família assinala na requisição as que entende necessárias; nos laboratórios privados vendem-se perfis de check-up já fechados. O conteúdo varia: costuma juntar um hemograma, uma bioquímica com glicemia e ionograma, um perfil lipídico e, por vezes, a tiroide ou o ferro. Duas pessoas que pedem «análises completas» podem sair do laboratório com oito linhas ou com quarenta.
Num inquérito a médicos de família portugueses, o colesterol total era a análise de «rotina» mais pedida em adultos (92,2%), logo seguida da glicemia.
Por isso, a primeira coisa a ver no seu boletim é que grupos foram de facto feitos. A tabela abaixo cobre a grande maioria dos pedidos de rotina. Cada grupo tem aqui a sua página, que explica o que mede e por que ordem se leem as suas linhas.
| Grupo | Linhas | O que avalia |
|---|---|---|
| Hemograma | 8 a 20 | Glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plaquetas e os índices dos glóbulos vermelhos |
| Bioquímica e ionograma | 6 a 14 | Glicemia, sódio, potássio e cloro, ureia, creatinina, por vezes cálcio e proteínas |
| Perfil lipídico | 4 a 5 | Colesterol total, LDL, HDL, triglicéridos |
| Função hepática | 5 a 7 | ALT (TGP), AST (TGO), gama-GT, fosfatase alcalina, bilirrubina, albumina |
| Função renal | 3 a 5 | Creatinina, taxa de filtração estimada, ureia, eletrólitos |
| Tiroide | 1 a 3 | TSH e, quando indicado, T4 livre ou T3 livre |
| Estudo do ferro | 3 a 4 | Ferritina, ferro sérico, saturação da transferrina |
O que um check-up geral pode detetar
Lido grupo a grupo, um check-up responde a algumas perguntas largas sobre o funcionamento do corpo nesta semana. Pode mostrar que tem anemia e sugerir de que tipo, que o açúcar no sangue está numa zona que merece conversa, que os rins ou o fígado estão sob algum esforço, ou que o padrão do colesterol aumenta o risco cardiovascular nos próximos anos.
Cada uma destas pistas é um ponto de partida, não um veredicto. A diabetes, por exemplo, não se decide com uma só glicemia: a norma da Direção-Geral da Saúde pede que, numa pessoa sem sintomas, um valor alterado seja confirmado numa segunda análise, uma a duas semanas depois.
E há o que detetar. No primeiro estudo nacional sobre o tema, 11,7% dos adultos entre os 20 e os 79 anos tinham diabetes, e quase metade deles (43,6%) não o sabia.
- HemogramaA anemia e, pelo tamanho dos glóbulos vermelhos, uma primeira pista sobre a causa. Glóbulos brancos ou plaquetas invulgarmente altos ou baixos.
- Açúcar no sangueEm Portugal, uma glicemia em jejum entre 110 e 125 mg/dL é «anomalia da glicemia de jejum»; 126 mg/dL ou mais, confirmado numa segunda análise, é diabetes.
- Rins e fígadoA creatinina e a taxa de filtração descrevem a filtração. A ALT, a AST e a fosfatase alcalina descrevem o esforço do fígado e das vias biliares.
- Risco cardiovascular a prazoNas orientações europeias, um LDL acima de 190 mg/dL basta, sozinho, para classificar uma pessoa como de risco alto.
O que um check-up não lhe diz
Um check-up de rotina não é um rastreio de cancro. Mesmo os marcadores tumorais funcionam mal para rastrear pessoas sem sintomas: o National Cancer Institute norte-americano nota que falham muitas pessoas doentes e que podem subir por causas que não são cancro. Um hemograma e uma bioquímica normais não dizem nada, num sentido ou no outro, sobre a maioria dos cancros.
Também deixa de fora tudo o que não foi pedido. A vitamina D, a B12, a ferritina, as hormonas e a maioria das infeções são análises à parte. E as linhas do colesterol medem substâncias no sangue, não o estado das artérias.
Por fim, descreve uma manhã. Um check-up é uma fotografia, não um filme: a maior parte do que o médico lê nele vem da comparação com as análises anteriores, ou com o motivo do pedido.
Leia por grupos, não de cima para baixo
A ordem útil não é a ordem impressa. Comece pelo motivo do pedido: se foi cansaço, a resposta está no hemograma e no estudo do ferro, e um cálcio ligeiramente fora é provavelmente ruído de fundo. Depois leia cada grupo como um todo: a hemoglobina com o VCM e a ferritina, a ALT com a AST, a creatinina com a taxa de filtração.
Só então olhe para as linhas assinaladas, e pergunte a que distância estão do limite, e não apenas se estão fora. Uma ferritina de 28 com o limite em 30 e uma ferritina de 4 recebem o mesmo sinal. A apresentação muda de laboratório para laboratório, mas a ordem de leitura não: análise, valor, unidade, intervalo de referência e, por fim, o sinal, que pode ser um asterisco, um H ou um L, um valor a negrito, uma cor, uma seta, ou nada.
Conte com um ou dois sinais mesmo estando de boa saúde. Cada intervalo é definido de forma a que cerca de 1 em cada 20 pessoas saudáveis fique de fora. Somado ao longo de vinte linhas, isso pesa: uma pessoa perfeitamente saudável tem mais probabilidade de ver pelo menos um sinal do que de não ver nenhum.
Por último, compare com as análises anteriores, se as tiver. Um valor que foi derivando dentro do intervalo ao longo de três anos pode dizer mais do que um único resultado assinalado.
Como se preparar para as análises de um check-up
A preparação depende das linhas da requisição, não da palavra «geral». O hemograma não exige nada de especial. A glicemia em jejum exige: pelo menos oito horas sem calorias. O colesterol, na maioria dos casos, não: desde 2016, as sociedades científicas europeias recomendam o perfil lipídico sem jejum como regra.
Na prática, muitos laboratórios portugueses continuam a pedir 12 horas de jejum para as análises de rotina, e é essa a instrução que vale para a sua colheita, porque o laboratório lê o resultado partindo do princípio de que a cumpriu. Pode beber água simples, salvo indicação em contrário. A própria colheita também conta: a recomendação europeia pede que o garrote seja retirado logo que o sangue começa a correr e que se evite abrir e fechar a mão.
De quanto em quanto tempo fazer análises de rotina?
Não há um calendário recomendado para um check-up completo, apenas para algumas perguntas dentro dele. Para o colesterol, as orientações europeias de 2019 admitem avaliar o risco cardiovascular, perfil lipídico incluído, nos homens a partir dos 40 anos e nas mulheres a partir dos 50 ou depois da menopausa, mesmo sem outros fatores de risco.
Fora disso, o ritmo vem de si: uma doença em seguimento, um medicamento que precisa de vigilância, um sintoma a investigar. Repetir todo o conjunto todos os anos num adulto saudável, sem nenhuma pergunta a que responder, acrescenta sobretudo hipóteses de um asterisco.
Um check-up geral ajuda mesmo?
É o ponto em que a evidência é invulgarmente clara, e vai contra a intuição. Uma revisão sistemática Cochrane reuniu 17 ensaios aleatorizados e 251 891 participantes para saber se oferecer check-ups gerais a adultos reduz a doença ou a morte. Encontrou pouco ou nenhum efeito na mortalidade total e por cancro, com evidência de certeza alta, e provavelmente nenhum na mortalidade cardiovascular. A conclusão é seca: é pouco provável que os check-ups gerais tragam benefício.
O que produzem são diagnósticos. Num dos ensaios, as pessoas convidadas para o check-up receberam mais 20% de diagnósticos novos em seis anos do que as outras, e declararam mais doenças crónicas. Chegou um rótulo; a evolução não mudou.
Convém ler bem o alcance deste resultado, porque é estreito e conta. Diz respeito ao rastreio de adultos sem sintomas, em vários órgãos ao mesmo tempo. Não diz nada sobre uma análise que o seu médico pediu por uma razão, nada sobre o seguimento de uma doença que já tem e nada sobre a investigação de um sintoma. Isso não são check-ups: são perguntas com resposta à espera, e continuam a valer a pena.
Perguntas a levar ao seu médico
Leve o boletim completo, não um resumo nem a fotografia de um só número no telemóvel. As unidades e os intervalos mudam de laboratório para laboratório, e 14 em g/dL não é 14 em g/L.
Alguns resultados não devem esperar pela próxima consulta de rotina. Um valor muito afastado do intervalo, várias linhas do mesmo grupo a mexer em conjunto, ou um resultado assinalado que bate certo com o que sente, como febre, nódoas negras invulgares ou falta de ar crescente, são razão para contactar o médico que pediu as análises em vez de esperar. Se o laboratório ou o médico o contactarem primeiro, siga as indicações deles.
- Porquê estas análises?O motivo do pedido diz qual o grupo que traz a resposta e quais os sinais que são apenas ruído de fundo.
- A que distância do limite?Pergunte se um valor assinalado está mesmo no limite ou muito para lá dele, e se essa distância muda alguma coisa.
- Mudou desde a última vez?Peça para comparar com resultados anteriores, de preferência do mesmo laboratório, para que uma mudança de método não passe por uma mudança em si.
- E agora?Repetir, fazer outra análise ou não fazer nada: cada uma é uma resposta legítima, e saber qual evita esperar na dúvida.