O que entra nas análises à função renal
Para avaliar a função renal, as análises juntam em geral a creatinina e a ureia, uma taxa de filtração glomerular estimada a partir da creatinina (a TFG, apresentada em mL/min/1,73 m²) e os eletrólitos que os rins equilibram: sódio, potássio e cloro. A lista exata varia de laboratório para laboratório, e alguns acrescentam cálcio, fósforo ou albumina, por isso vale a pena olhar para as linhas impressas no próprio boletim.
Os rins funcionam como um filtro que limpa o sangue sem parar, e estas linhas descrevem esse filtro a partir de ângulos diferentes. Leem-se em grupo, nunca uma a uma: a creatinina e a TFG descrevem a filtração, a ureia lê-se contra a creatinina, e os eletrólitos descrevem o equilíbrio que os rins asseguram. A urina conta tanto como o sangue: as análises de urina permitem avaliar as perdas de proteína, e as recomendações internacionais pedem as duas coisas em quem tem fatores de risco.
A creatinina mede o seu músculo tanto como os seus rins
A creatinina é um resíduo do músculo, eliminado pelos rins. A quantidade no sangue depende, por isso, de duas coisas: de quão bem os rins a eliminam e de quanto músculo a produz.
Esta segunda metade explica resultados que, de outro modo, parecem contraditórios. Um jovem musculado e uma senhora idosa e franzina com a mesma função renal não terão a mesma creatinina. As recomendações internacionais de nefrologia enumeram os suspeitos do costume: massa muscular muito alta ou muito baixa, culturismo e exercício extremo, dietas ricas em proteína e suplementos de creatina, e dietas vegetarianas ou pobres em proteína, que mudam a creatinina sem qualquer alteração dos rins.
Até uma única refeição conta. Uma refeição de carne ou peixe cozinhados pode fazer subir a creatinina cerca de 0,23 mg/dL, o suficiente para baixar a TFG em cerca de 20 pontos; esperar pelo menos 12 horas depois dessa refeição evita o efeito.
É também por isso que os intervalos de referência diferem entre sexos, e que uma creatinina no limite de cima em alguém com pouco músculo merece mais atenção do que o mesmo valor em alguém com muito.
A TFG é um cálculo, não uma medição
A taxa de filtração glomerular impressa no boletim não foi medida. É calculada a partir da creatinina, com a idade e o sexo, através de uma equação, e herda a incerteza dessa equação. Em 2021, a nefrologia americana passou a recomendar uma versão da equação CKD-EPI sem variável étnica, por isso um boletim antigo pode não ser diretamente comparável com um recente.
Os boletins costumam indicar a equação usada, e o valor é ajustado a um tamanho corporal médio, não ao seu. A consequência prática é que a TFG é excelente para seguir uma tendência e fraca para ler uma casa decimal. Quando a massa muscular é invulgar, um segundo marcador, a cistatina C, pode confirmar a estimativa.
Dois valores de laboratórios diferentes, ou de equações diferentes, não são diretamente comparáveis. Um degrau na sua curva no momento em que mudou de laboratório pertence ao método, não aos seus rins.
Qual é a TFG normal para a sua idade?
A TFG desce com a idade, mesmo em quem não tem doença renal. A National Kidney Foundation, sociedade americana de nefrologia, indica uma média de cerca de 116 aos vinte e poucos anos e de cerca de 75 a partir dos 70. Uma TFG de 85 aos setenta anos não é a mesma coisa que o mesmo número aos vinte e cinco.
É aqui que os intervalos mais enganam. Cada um deixa de fora cerca de 1 em cada 20 pessoas saudáveis em qualquer análise, e um único limite impresso para todas as idades não reflete essa descida lenta.
Um valor isolado nunca é doença renal crónica
Uma única TFG baixa é um achado, não um diagnóstico. A doença renal crónica define-se por alterações que duram pelo menos três meses: tipicamente uma TFG abaixo de 60, ou uma relação albumina/creatinina na urina de 30 mg/g ou mais, ainda presentes quando se repetem as análises, a não ser que haja provas anteriores de que o problema já existia.
É por isso que um valor baixo costuma ser repetido em vez de tratado de imediato, e é por isso que a urina importa tanto como o sangue: a albumina na urina traz uma informação que nenhuma linha do sangue traz.
O contrário também é verdade: a doença renal no início é frequente e silenciosa, e os sintomas podem só aparecer quando a função renal já desceu para 15 a 20 %. Em Portugal, o estudo PREVADIAB encontrou doença renal crónica nos estádios 3 a 5 em 6,1 % dos adultos, e o estudo RENA, feito em utentes dos cuidados de saúde primários, estimou uma prevalência global de 20,9 %, com uma margem de incerteza larga. A diabetes e a hipertensão arterial são as causas mais comuns. Quem tem uma delas deve perguntar se as suas análises aos rins incluem uma análise à urina.
- É o primeiro valor baixo?Um valor visto uma vez repete-se; o mesmo valor em várias colheitas, com meses de intervalo, é o que define uma tendência.
- A urina foi analisada?Uma relação albumina/creatinina na urina pode mostrar lesão dos rins enquanto a TFG ainda parece normal.
A ureia e o resto das análises
A ureia sobe com a desidratação, com uma alimentação muito rica em proteína e com hemorragias no tubo digestivo, e não só quando a função renal diminui. Lê-se ao lado da creatinina e não sozinha, e a relação entre as duas traz informação que nenhuma traz isoladamente.
Os eletrólitos das mesmas análises descrevem o equilíbrio que os rins asseguram. Mexem por muitas razões, incluindo vários medicamentos comuns, e leem-se em grupo. Entre os fármacos mais vezes envolvidos na lesão dos rins estão os analgésicos e os anti-inflamatórios tomados durante muito tempo, o que vale a pena referir ao médico.